Capítulo 3 - Um estranho adorado

             Ao entrar não queria acreditar no que via… A casa estava toda iluminada com luzinhas no tecto, havia montes de comida em cima da mesa de jantar e todas as amigas da minha avó estavam lá, mas por alguma razão estavam todas agitadas. Pendurei o meu casaco e dirigi-me para a sala onde todos se encontravam.
            - Ah olá minha netinha, finalmente chegaste! – Disse a vovó e todos olharam para mim e aí finalmente descobri o motivo de tanta agitação… Estava um homem esbelto sentado no sofá. Tinha cabelos castanhos acobreados uns olhos verdes e um sorriso inigualável. Envergava um fato preto com uma camisa branca e parecia simplesmente perfeito.
            - Ah esta é que é a encantadora Sophia que tanto me falas avó? – Disse com uma voz melodiosa que me causou arrepios pela espinha.
            - Sim Will é ela mesmo. – Sorriu a avó enquanto me puxava para perto do William.
            - Encantado Sophia, a minha avó sempre falou bem de si. – Disse enquanto puxava a minha mão e a beijava suavemente.
            Não queria acreditar, este homem estava a beijar-me a mão, nunca tinha visto tais maneiras, era de certeza algo fora do comum… Ele continuava a falar e eu não reagia, estava demasiado envergonhada para falar.
            - Ah deixa lá Will, a Sophy é um pouco envergonhada, é uma mulher de poucas palavras. – Disse a minha mãe em risinhos.
            - Muito bem, entendo perfeitamente Senhora Lisa. – Disse soltando-me a mão e sentou-se de novo no sofá.
Eu estava tão atordoada… Primeiro tinha dançado pela primeira vez à frente de todos, segundo dancei sabendo que o Thomas estava a ver-me dançar e agora que pensava que voltaria para casa sabendo que estariam aqui apenas a minha família e algumas amigas da minha avó e mãe, não! Deparo-me com o neto da vovó, o William… Ele era lindo, fora do comum e tinha um sorriso encantador.
Sentei-me no sofá no meu canto, o mais encolhida possível e afastada dele dentro daquela sala. Fiquei a tentar concentrar-me apenas nas conversas que pairavam na sala.
A dona Elisa estava a comentar com a vovó que a festa está excelente e que adorou o que a minha mãe tinha feito com os sofás que ela agora possuía em sua casa. A dona Elisa era uma senhora de 40 anos solteira também, e pediu recentemente que a minha mãe lhe fizesse uma mudança nos sofás da sua casa, e assim aconteceu. Ao que parece ela adorou.
A dona Elzira estava sentada no sofá a conversar com a dona Lourdes que o neto dela estava casado e agora estava à espera de ser avó. Dizia que queria uma menina para poder ensiná-la a coser, cozinhar e talvez até se interessa-se por jardinagem. A dona Lourdes apenas acenava que sim, enquanto fazia o resto do tricô.
            A Dona Carminho estava sentada ao lado do William, ela era uma senhora com 45 anos que pensava que era ainda jovem. Estava a meter-se com o William dizendo que ele era muito mais bem-parecido do que a vovó tinha descrito… e bla, bla, bla… Conversa horrível, uma mulher daquela idade a mete-se com um homem de 26 anos… E o pior é que o William parecia gostar, sinceramente… Desliguei automaticamente.
            Estava tudo calmo, estava perdida na minha mente até que senti a parte do sofá ao meu lado ser ocupada, olhei para o lado e vi que era o William.
            - Olá, acho que ainda não fomos ainda devidamente apresentados. – Sorriu – Chamo-me William – Disse estendendo-me a mão
            Olhei aturdida e a olhar para os seus olhos, eram verdes, um verde profundo, como se tivéssemos a olhar para o fundo do mar dos recifes de corais…
            - Olá, sou a Sophia. – Disse envergonhada apertando-me ainda mais para me afastar dele.
            - Ah é um bonito nome. A tua avó falou-me muito de ti sabes? – Perguntou com um sorriso meigo
            - Hum… ok. – Disse. Eu não sabia o que dizer, eu já era péssima a comunicar com as pessoas, quanto mais falar com um homem do tipo dele…
            - Realmente és engraçada. – Disse a rir e a olhar para mim com uns olhos ternos… mas curiosos suponho.
            Eu estava perdida, não conseguia formular nenhuma linha de pensamento, e nem sabia do que ele se ria, estava perdida… um pouco assustada até, diria. Estava quase a correr para fora dali, quando a minha avó anunciou:
            - Senhoras, está na hora do Jantar! – Disse sorrindo chamando-nos.
            Olhei para o relógio pendurado na parede e vi que eram quase 22:30h… Sim, já era hora de jantar, alias até já se fazia tarde. Levantei-me e dirigi-me para a minha cadeira do costume. Sentei-me numa das pontas da mesa. Estava a concentrar-me em tirar a salada de nabiças até que senti alguém a sentar-se à minha frente. Era o William…
Tentei apenas concentrar-me no que estava a fazer, mas a presença dele ali fazia-me nervosa… mais do que o normal, infelizmente não sabia o motivo de tal nervosismo.
            Começamos todos a comer, então após todos termos comida nos pratos começaram as conversas alheias.
            - Então William, o que o trás por cá? – Perguntou a Dona Carminho enquanto levava uma garfada de frango à boca.
            - Bem, recebi uma bolsa para efectuar o meu doutoramento aqui na Universidade de Maryland. Escusado será dizer que aceitei de imediato, para além de ficar a conhecer a cidade também poderia visitar a minha querida avó. – Disse olhando ternurento para a vovó Graça.
            - Oh Will, não digas isso que fazes a avó chorar de felicidade. – Disse Graça na outra ponta da mesa.
            - Então Will já tem alguma casa por aqui? – Perguntou a minha mãe – É que se não tiveres podes perfeitamente ficar na nossa, temos espaço suficiente.
            Quase que me engasguei, mas não… Fiquei com os olhos esbugalhados a olhar para o prato. Se eu mal conseguia encara-lo no jantar, imaginem encara-lo todos os dias durante um certo período indefinido aqui em casa? Não, eu só esperava que ele não aceitasse…
            - Obrigada pelo convite Senhora Lisa, mas já encontrei um apartamento na zona Este da Cidade, fica apenas a um quarteirão da Faculdade. Só tenho pena é que não esteja ao meu gosto, mas isso vai-se arranjando. – Sorriu levando um pedaço de pão à sua boca.
            Suspirei de alívio… Terminei de comer e fiquei apenas na mesa. Seria má educação da minha parte levantar-me da mesa assim do nada sem sequer ninguém ter terminado. Estava a olhar para o relógio quando ouvi uma pergunta dirigida a mim…
            - Sophy é verdade que hoje foste dançar? – Perguntou a dona Elzira
            - Hum… sim. – Disse envergonhada, concentrando-me a olhar para o prato.
            - Havias de ter visto Elzira, ela estava fantástica. A roupa assentava-lhe muito bem, era a mais bonita de todas elas, e nem falei da dança dela sequer! Ela dançou de uma maneira como eu nunca vi, o Will nem queria acreditar que era a Sophy que eu sempre lhe falei… – Calou-se subitamente a vovó
            Fiquei sem reacção… Então o William tinha-me visto a dançar também… Já não bastava o Thomas e agora era o William também… Eu nem tinha reparado que alguém se sentara ao lado da avó… Não, mas havia alguém lá ao fundo da sala encostado à parede com o olhar vidrado em mim… Não, não podia!
            Levantei-me da mesa e desatei a correr para o quarto. Fechei a porta bruscamente atrás de mim… Deitei-me para cima da cama. Como é que elas tinham sido capazes… Elas sabiam que eu não conseguia dançar em público… eu pedi-lhes para elas não trazerem ninguém…
Agora ali estava eu, a chorar em cima da cama, enquanto lá em baixo deviam estar horrorizados com a minha reacção… Levantei-me tão bruscamente que devem ter pensado que eu era malcriada. Pior, imagino os pensamentos que irão agora na cabeça do neto da Graça.
            Chorei até que adormeci… Acordei com o som de alguém a bater à porta. Levantei a cabeça da almofada e sussurrei dando autorização à pessoa para que entrasse.
            - Posso entrar querida? – Perguntou a vovó
            - Sim… – Respondi sentando-me direita na cama.
A vovó sentou-se na beira da cama, tinha um olhar triste. Colocou a mão em cima da minha cabeça e disse:
            - Desculpa Sophy… Eu não sabia que ele ia chegar no dia dos meus anos, e que muito menos que iria chegar a tempo da tua actuação… Eu nunca iria fazer-te sentir envergonhada netinha, sempre lhe disse que tu eras envergonhada e pronto falei-lhe no espectáculo, mas como te disse querida, eu não sabia que ele vinha. Eu nunca te poria com vergonha netinha… – Disse a vovó
            Eu vi que ela não tinha feito por mal, mas mesmo assim tinha vergonha… Alem disso, se a vovó tinha falado tanto com o William e ele sabia que eu era tímida, ele era o culpado, ele é que tinha decidido espreitar o que não devia… E agora, eu é que estava com vergonha de o encarar…
            - Netinha, perdoas-me? – Perguntou a vovó
            - Sim. – Disse ensonada
            - Obrigada minha querida, agora dorme porque precisas mesmo Sophy… – Disse indo em direcção à porta do meu quarto, mas deteve-se na porta e disse – Sabes, não sejas tão dura com o Will, ele ficou tão mal que ficou aqui até às duas da manha, mas a tua mãe acabou por convence-lo a ir para casa. – Disse olhando para mim
            - Ok. – Disse apenas olhando para a porta.
Assim que a avó saiu deitei-me na almofada, olhei para o lado e o despertador acusava 2:45h. Era de madrugada e segundo a vovó o William tinha saído há quarenta e cinco minutos… Acho que afinal ele não é assim tão mau. No entanto ele é que teve a culpa, ele não tinha que me ver, não tinha!
            Virei-me para o outro lado da cama, enrosquei-me nos lençóis e sentia-me cansada, completamente exausta… Para além de ter tido durante uns dias muitos ensaios e os meus músculos estarem doridos, tive o espectáculo onde tive de lidar não só com uma plateia como também o Thomas. Para melhorar o meu dia tive que conhecer o William e ficar a saber que ele também me viu… Estava cansada, demasiado cansada para pensar se iria perdoar a vovó e como iria encarar o William, mas isso ficaria para amanha. Contorci-me nos lençóis com o frio da noite e após isso adormeci profundamente sem qualquer sonho que me ocupasse a mente.
            Eram 9 da manhã quando ouvi o despertador a tocar. Desliguei-o e rapidamente saí da cama. Fi-la puxando os lençóis azuis-bebé e o edredão. Calcei as pantufas e dirigi-me para a casa de banho. Olhei-me ao espelho, estava com um ar cansado, apesar de ter dormido sem sonhar acho que não dormi bem devido à vovó. Lavei a cara com água fria e escovei rapidamente o cabelo.
            Desci lentamente as escadas de madeira e encontrei a mãe e a avó na mesa a terminar o pequeno-almoço. Dirigi-me para a minha cadeira e sentei-me.
            - Bom dia dorminhoca. – Disse a minha mãe com um sorriso nos lábios.
            - Bom dia Sophy… – Disse a avó com ar de preocupação. Ela parecia mesmo preocupada, ela queria que eu a perdoasse e ao William… Eu detestava ver a avó triste… Sim, eu já tinha perdoado a vovó e quanto ao William, bem eu iria perdoa-lo.
            - Bom dia. – Disse sorrindo para a minha avó, queria mostrar-lhe que já estava bem e que os perdoaria, acho que ela entendeu, pois ficou com uma melhor cara.
            Comecei a preparar o meu pequeno-almoço: uma chávena de leite com café, um pão barrado com geleia de morango e por fim, comi umas amoras do jardim das traseiras.
Levantei-me da mesa e dirigi-me para o lava-loiça, comecei a lavar a loiça e pu-la a secar. Estava concentrada em retirar o resto da humidade das minhas mãos com o pano até que a minha mãe chamou-me:
            - Hum, filha tens aqui uma carta para ti. – Disse estendendo a carta para mim.
Pousei o pano na bancada e agarrei a carta. Sentei-me na cadeira da cozinha de novo e li o início da carta, estava dirigida a mim e era da Faculdade de Maryland… Da faculdade?! Mas eu não entendo…
Rasguei a ponta do envelope, tirei a carta e comecei a lê-la…
            - Então filha, do que se trata? – Perguntou a mãe
            - Netinha? – Perguntou a minha vovó quando viu que eu não respondia.
Olhei-as nos olhos quando terminei de ler a carta, não tinha acreditado no que tinha lido, mas era verdade…
            - Mãe, vovó eu…

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