Ao entrar não queria acreditar no que via… A casa estava toda
iluminada com luzinhas no tecto, havia montes de comida em cima da mesa de
jantar e todas as amigas da minha avó estavam lá, mas por alguma razão estavam
todas agitadas. Pendurei o meu casaco e dirigi-me para a sala onde todos se
encontravam.
- Ah olá minha
netinha, finalmente chegaste! – Disse a vovó e todos olharam para mim e aí
finalmente descobri o motivo de tanta agitação… Estava um homem esbelto sentado
no sofá. Tinha cabelos castanhos acobreados uns olhos verdes e um sorriso
inigualável. Envergava um fato preto com uma camisa branca e parecia
simplesmente perfeito.
- Ah esta é que é
a encantadora Sophia que tanto me falas avó? – Disse com uma voz melodiosa que
me causou arrepios pela espinha.
- Sim Will é ela
mesmo. – Sorriu a avó enquanto me puxava para perto do William.
- Encantado
Sophia, a minha avó sempre falou bem de si. – Disse enquanto puxava a minha mão
e a beijava suavemente.
Não queria
acreditar, este homem estava a beijar-me a mão, nunca tinha visto tais
maneiras, era de certeza algo fora do comum… Ele continuava a falar e eu não
reagia, estava demasiado envergonhada para falar.
- Ah deixa lá
Will, a Sophy é um pouco envergonhada, é uma mulher de poucas palavras. – Disse
a minha mãe em risinhos.
- Muito bem,
entendo perfeitamente Senhora Lisa. – Disse soltando-me a mão e sentou-se de
novo no sofá.
Eu estava tão atordoada… Primeiro tinha
dançado pela primeira vez à frente de todos, segundo dancei sabendo que o
Thomas estava a ver-me dançar e agora que pensava que voltaria para casa
sabendo que estariam aqui apenas a minha família e algumas amigas da minha avó
e mãe, não! Deparo-me com o neto da vovó, o William… Ele era lindo, fora do
comum e tinha um sorriso encantador.
Sentei-me no sofá no meu canto, o mais
encolhida possível e afastada dele dentro daquela sala. Fiquei a tentar
concentrar-me apenas nas conversas que pairavam na sala.
A dona Elisa estava a comentar com a vovó
que a festa está excelente e que adorou o que a minha mãe tinha feito com os
sofás que ela agora possuía em sua casa. A dona Elisa era uma senhora de 40
anos solteira também, e pediu recentemente que a minha mãe lhe fizesse uma
mudança nos sofás da sua casa, e assim aconteceu. Ao que parece ela adorou.
A dona Elzira estava sentada no sofá a conversar com a dona
Lourdes que o neto dela estava casado e agora estava à espera de ser avó. Dizia
que queria uma menina para poder ensiná-la a coser, cozinhar e talvez até se
interessa-se por jardinagem. A dona Lourdes apenas acenava que sim, enquanto
fazia o resto do tricô.
A Dona Carminho
estava sentada ao lado do William, ela era uma senhora com 45 anos que pensava
que era ainda jovem. Estava a meter-se com o William dizendo que ele era muito
mais bem-parecido do que a vovó tinha descrito… e bla, bla, bla… Conversa
horrível, uma mulher daquela idade a mete-se com um homem de 26 anos… E o pior
é que o William parecia gostar, sinceramente… Desliguei automaticamente.
Estava tudo calmo, estava perdida na minha mente até que
senti a parte do sofá ao meu lado ser ocupada, olhei para o lado e vi que era o
William.
- Olá, acho que
ainda não fomos ainda devidamente apresentados. – Sorriu – Chamo-me William –
Disse estendendo-me a mão
Olhei aturdida e
a olhar para os seus olhos, eram verdes, um verde profundo, como se tivéssemos
a olhar para o fundo do mar dos recifes de corais…
- Olá, sou a
Sophia. – Disse envergonhada apertando-me ainda mais para me afastar dele.
- Ah é um bonito
nome. A tua avó falou-me muito de ti sabes? – Perguntou com um sorriso meigo
- Hum… ok. –
Disse. Eu não sabia o que dizer, eu já era péssima a comunicar com as pessoas,
quanto mais falar com um homem do tipo dele…
- Realmente és
engraçada. – Disse a rir e a olhar para mim com uns olhos ternos… mas curiosos
suponho.
Eu estava
perdida, não conseguia formular nenhuma linha de pensamento, e nem sabia do que
ele se ria, estava perdida… um pouco assustada até, diria. Estava quase a
correr para fora dali, quando a minha avó anunciou:
- Senhoras, está
na hora do Jantar! – Disse sorrindo chamando-nos.
Olhei para o
relógio pendurado na parede e vi que eram quase 22:30h… Sim, já era hora de
jantar, alias até já se fazia tarde. Levantei-me e dirigi-me para a minha
cadeira do costume. Sentei-me numa das pontas da mesa. Estava a concentrar-me
em tirar a salada de nabiças até que senti alguém a sentar-se à minha frente.
Era o William…
Tentei apenas concentrar-me no que estava a fazer, mas a presença
dele ali fazia-me nervosa… mais do que o normal, infelizmente não sabia o
motivo de tal nervosismo.
Começamos todos a
comer, então após todos termos comida nos pratos começaram as conversas
alheias.
- Então William,
o que o trás por cá? – Perguntou a Dona Carminho enquanto levava uma garfada de
frango à boca.
- Bem, recebi uma
bolsa para efectuar o meu doutoramento aqui na Universidade de Maryland.
Escusado será dizer que aceitei de imediato, para além de ficar a conhecer a
cidade também poderia visitar a minha querida avó. – Disse olhando ternurento
para a vovó Graça.
- Oh Will, não
digas isso que fazes a avó chorar de felicidade. – Disse Graça na outra ponta
da mesa.
- Então Will já
tem alguma casa por aqui? – Perguntou a minha mãe – É que se não tiveres podes
perfeitamente ficar na nossa, temos espaço suficiente.
Quase que me
engasguei, mas não… Fiquei com os olhos esbugalhados a olhar para o prato. Se
eu mal conseguia encara-lo no jantar, imaginem encara-lo todos os dias durante
um certo período indefinido aqui em casa? Não, eu só esperava que ele não
aceitasse…
- Obrigada pelo
convite Senhora Lisa, mas já encontrei um apartamento na zona Este da Cidade,
fica apenas a um quarteirão da Faculdade. Só tenho pena é que não esteja ao meu
gosto, mas isso vai-se arranjando. – Sorriu levando um pedaço de pão à sua
boca.
Suspirei de
alívio… Terminei de comer e fiquei apenas na mesa. Seria má educação da minha
parte levantar-me da mesa assim do nada sem sequer ninguém ter terminado.
Estava a olhar para o relógio quando ouvi uma pergunta dirigida a mim…
- Sophy é verdade
que hoje foste dançar? – Perguntou a dona Elzira
- Hum… sim. –
Disse envergonhada, concentrando-me a olhar para o prato.
- Havias de ter
visto Elzira, ela estava fantástica. A roupa assentava-lhe muito bem, era a
mais bonita de todas elas, e nem falei da dança dela sequer! Ela dançou de uma
maneira como eu nunca vi, o Will nem queria acreditar que era a Sophy que eu
sempre lhe falei… – Calou-se subitamente a vovó
Fiquei sem
reacção… Então o William tinha-me visto a dançar também… Já não bastava o
Thomas e agora era o William também… Eu nem tinha reparado que alguém se
sentara ao lado da avó… Não, mas havia alguém lá ao fundo da sala encostado à
parede com o olhar vidrado em mim… Não, não podia!
Levantei-me da
mesa e desatei a correr para o quarto. Fechei a porta bruscamente atrás de mim…
Deitei-me para cima da cama. Como é que elas tinham sido capazes… Elas sabiam
que eu não conseguia dançar em público… eu pedi-lhes para elas não trazerem
ninguém…
Agora ali estava eu, a chorar em cima da cama, enquanto lá em
baixo deviam estar horrorizados com a minha reacção… Levantei-me tão
bruscamente que devem ter pensado que eu era malcriada. Pior, imagino os
pensamentos que irão agora na cabeça do neto da Graça.
Chorei até que
adormeci… Acordei com o som de alguém a bater à porta. Levantei a cabeça da
almofada e sussurrei dando autorização à pessoa para que entrasse.
- Posso entrar
querida? – Perguntou a vovó
- Sim… – Respondi
sentando-me direita na cama.
A vovó sentou-se na beira da cama, tinha um olhar triste. Colocou
a mão em cima da minha cabeça e disse:
- Desculpa Sophy…
Eu não sabia que ele ia chegar no dia dos meus anos, e que muito menos que iria
chegar a tempo da tua actuação… Eu nunca iria fazer-te sentir envergonhada
netinha, sempre lhe disse que tu eras envergonhada e pronto falei-lhe no
espectáculo, mas como te disse querida, eu não sabia que ele vinha. Eu nunca te
poria com vergonha netinha… – Disse a vovó
Eu vi que ela não
tinha feito por mal, mas mesmo assim tinha vergonha… Alem disso, se a vovó
tinha falado tanto com o William e ele sabia que eu era tímida, ele era o
culpado, ele é que tinha decidido espreitar o que não devia… E agora, eu é que
estava com vergonha de o encarar…
- Netinha,
perdoas-me? – Perguntou a vovó
- Sim. – Disse
ensonada
- Obrigada minha
querida, agora dorme porque precisas mesmo Sophy… – Disse indo em direcção à
porta do meu quarto, mas deteve-se na porta e disse – Sabes, não sejas tão dura
com o Will, ele ficou tão mal que ficou aqui até às duas da manha, mas a tua
mãe acabou por convence-lo a ir para casa. – Disse olhando para mim
- Ok. – Disse
apenas olhando para a porta.
Assim que a avó saiu deitei-me na almofada, olhei para o lado e o
despertador acusava 2:45h. Era de madrugada e segundo a vovó o William tinha
saído há quarenta e cinco minutos… Acho que afinal ele não é assim tão mau. No
entanto ele é que teve a culpa, ele não tinha que me ver, não tinha!
Virei-me para o
outro lado da cama, enrosquei-me nos lençóis e sentia-me cansada, completamente
exausta… Para além de ter tido durante uns dias muitos ensaios e os meus
músculos estarem doridos, tive o espectáculo onde tive de lidar não só com uma
plateia como também o Thomas. Para melhorar o meu dia tive que conhecer o
William e ficar a saber que ele também me viu… Estava cansada, demasiado
cansada para pensar se iria perdoar a vovó e como iria encarar o William, mas
isso ficaria para amanha. Contorci-me nos lençóis com o frio da noite e após
isso adormeci profundamente sem qualquer sonho que me ocupasse a mente.
Eram 9 da manhã
quando ouvi o despertador a tocar. Desliguei-o e rapidamente saí da cama. Fi-la
puxando os lençóis azuis-bebé e o edredão. Calcei as pantufas e dirigi-me para
a casa de banho. Olhei-me ao espelho, estava com um ar cansado, apesar de ter
dormido sem sonhar acho que não dormi bem devido à vovó. Lavei a cara com água
fria e escovei rapidamente o cabelo.
Desci lentamente
as escadas de madeira e encontrei a mãe e a avó na mesa a terminar o
pequeno-almoço. Dirigi-me para a minha cadeira e sentei-me.
- Bom dia
dorminhoca. – Disse a minha mãe com um sorriso nos lábios.
- Bom dia Sophy… –
Disse a avó com ar de preocupação. Ela parecia mesmo preocupada, ela queria que
eu a perdoasse e ao William… Eu detestava ver a avó triste… Sim, eu já tinha perdoado
a vovó e quanto ao William, bem eu iria perdoa-lo.
- Bom dia. –
Disse sorrindo para a minha avó, queria mostrar-lhe que já estava bem e que os
perdoaria, acho que ela entendeu, pois ficou com uma melhor cara.
Comecei a
preparar o meu pequeno-almoço: uma chávena de leite com café, um pão barrado
com geleia de morango e por fim, comi umas amoras do jardim das traseiras.
Levantei-me da mesa e dirigi-me para o lava-loiça, comecei a lavar
a loiça e pu-la a secar. Estava concentrada em retirar o resto da humidade das
minhas mãos com o pano até que a minha mãe chamou-me:
- Hum, filha tens
aqui uma carta para ti. – Disse estendendo a carta para mim.
Pousei o pano na bancada e agarrei a
carta. Sentei-me na cadeira da cozinha de novo e li o início da carta, estava
dirigida a mim e era da Faculdade de Maryland… Da faculdade?! Mas eu não
entendo…
Rasguei a ponta do envelope, tirei a carta e comecei a lê-la…
- Então filha, do
que se trata? – Perguntou a mãe
- Netinha? –
Perguntou a minha vovó quando viu que eu não respondia.
Olhei-as nos olhos quando terminei de ler a carta, não tinha
acreditado no que tinha lido, mas era verdade…
- Mãe, vovó eu…
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