Estatelei-me no chão do estúdio, estava
exausta… Dançar era algo que eu adorava, e realmente era óptima nisso. Dançava
de tudo… Dança contemporânea, ballet, tango, salsa, dança do ventre e até
hip-hop, mas apesar de ser óptima dançarina, não conseguia mostrar as minhas
capacidades para o mundo, demasiado constrangedor.
Olhei
para o relógio afixado, eram 21 horas, estava na hora de ir para casa, mas eu
não conseguia… Não sabendo que daqui a dois dias todos os pais, amigos e
namorados das pessoas da minha classe me iriam ver a dançar. Só de pensar nisso
deu-me um calafrio pela espinha e comecei a suar em bica.
Não
queria ir para casa, mas tinha que descansar e tomar um longo banho para me
livrar do nervosismo. Peguei no meu saco, desliguei as luzes e tranquei o
estúdio. Dirigi-me para o carro e liguei rapidamente a ignição. Comecei a
dirigir para casa, até que finalmente cheguei.
Entrei dentro de casa e logo vi a grande
agitação que se dava. Graça e a minha mãe estavam abraçadas e aos pulinhos no
meio do hall de entrada. Pousei o saco no chão e fiz uma cara de parva a olhar
para elas.
-
Sophy não adivinhas quem vem para cá minha querida! – Gritou a vovó
dirigindo-se a mim e abraçando-me não contendo a felicidade que já transbordava
pelos seus olhos.
A abracei também questionando-me de quem
é que ela estaria a falar. A vovó percebeu a minha confusão e rapidamente se
apressou a dizer:
-
Minha querida, o meu neto William vem para cá! – Disse com grande entusiasmo
deixando-se cair no banco que tínhamos na entrada.
A minha mãe dirigiu-se para ela e
sentou-se ao seu lado dando-lhe um enorme abraço de conforto que transmitia
felicidade. Eu conhecia o neto de Graça, mas não muito bem, sei que se chamava
William e que desde que a sua mãe faleceu ele viveu com o pai em Inglaterra,
Londres. Ele é 7 anos mais velho que eu, e sei que se formou em Medicina e
Graça não o vê há mais de 2 anos
No
entanto, eu sabia o quanto Graça adorava o seu neto, era como se fosse o seu
menino, a sua preciosidade. Apressei-me a dizer que estava feliz por ela
finalmente voltar a ver o neto, estava mesmo contente pela felicidade dela, mas
apenas consegui dizer a minha felicidade em meras palavras.
-
Que bom Graça. – Disse esperando que Graça percebesse que eu estava realmente
feliz, e felizmente ela percebeu.
-
Obrigada Sophy! Foi uma surpresa para mim quando ele ligou a dizer que ia fazer
cá o Doutoramento e que tinha muitas saudades minhas. Fiquei tão feliz por ver
o meu menino cá comigo… Pena que ele não chega a tempo dos meus anos, mas não
faz mal. – Disse sentindo-se a transbordar de felicidade.
A
minha mãe olhou para mim a sorrir e depois lembrou-se de algo e perguntou-me:
-
Sophy como correu o treino para o espectáculo?
Fiz
um esgar, só de pensar que eu não estaria nesta situação se Graça não tivesse
pedido que eu actuasse como prenda de aniversário para ela, eu fui incapaz de
lhe fazer a desfeita…
-
Bem. – Disse apenas dirigindo-me para o andar de cima para tomar um banho
relaxante.
Primeiro pus o meu saco e
consequentemente a roupa suada para lavar. Dirigi-me para o meu quarto e peguei
na minha roupa interior e no meu pijama amarelo com bordados nas mangas. Voltei
à casa de banho onde entrei rapidamente para o duche.
A
água quente começou a descontrair os meus músculos imediatamente que agora
devido ao meu esforço diário, eles pareciam começar a ficar a doer após os
treinos. Coloquei uma boa dose de champô de morango no meu cabelo agora solto
do elástico, começando a esfregar descontraidamente. Morango era um dos meus
odores preferidos, conseguia relaxar-me como se tivesse numa consulta de aromaterapia.
Logo
de seguida, enxaguei o cabelo, pus amaciador de amoras nas pontas. Apanhei a
minha esponja rosa e coloquei lá o meu gel de duche com cheiro a baunilha.
Comecei a passar no meu corpo com movimentos circulares ao mesmo tempo que
tentava massajar os meus músculos doridos.
Enxaguei-me e enrolei-me na toalha.
Sequei-me e vesti o meu pijama rapidamente. Sequei o cabelo muito depressa com
a toalha e escovei-o para me livrar dos nós que se tinham formado. Estava
pronta.
Fui
ao andar de baixo, onde a Graça e a mãe estavam a ver TV, passei por elas e
reparei que era a novela das 22:30h. Dirigi-me à cozinha onde estava um pedaço
de lasanha de vegetais – eu era vegetariana – e aqueci no microondas. Enquanto
o cheiro dos orégãos e dos vegetais se dissipava na cozinha, enchi um copo com
sumo de laranja e esperei ao pé do microondas a comida.
Retirei
a lasanha e dirigi-me para a sala no meu canto do sofá preferido. Comecei a
comer devagar a lasanha e ver a novela com a minha família. Realmente não se
percebe nada das novelas, então assim que terminei levantei-me do sofá e fui
lavar a loiça.
Deixei a loiça enxaguar e quando olhei
para o relógio vi que eram cerca de 23 horas. Eu tinha que ir descansar, pelo
menos até o dia do espectáculo chegar, que era daqui a dois dias, e para meu
azar, era no mesmo dia que os anos da vovó Graça.
-
Vou dormir. – Anunciei parada no meio da sala.
-
Já vais dormir filha?! Mas é Sexta à noite! Não vais sair com os teus amigos,
ou com algum rapaz? … - Perguntou a minha mãe com cara de poucos amigos.
-
Não, vou apenas dormir. – Disse a bocejar, e ligeiramente farta das investidas
da minha mãe para que eu fosse mais social.
-
Durma bem netinha, deves estar cansada e tens que descansar para o espectáculo.
– Disse a vovó com um sorriso de orelha a orelha.
-
Dorme bem então filha. – A mãe disse com uma voz de desistente, mas eu sabia
que era apenas por hoje.
Sorri pela pequena vitória e escapei para
o quarto. Fechei as cortinas azul-turquesa e dirigi-me para a cama, onde puxei
o meu edredão castanho com flores azuis. Meti-me dentro da cama e rapidamente
adormeci permitindo-me a mim sonhar.
Acordei
por volta das cinco da manha, dei voltas e voltas na cama mas simplesmente não
consegui adormecer… Continuei deitada na cama envolta nos meus cobertores,
olhei para o relógio e vi que eram agora 5:30h, ainda era muito cedo para me
levantar. Não consegui dormir muito bem esta noite, sabia que o espectáculo
seria hoje à noite… anteontem adormeci mais facilmente, mas ontem com os
treinos e tudo mais pensei que tivesse suficientemente cansada para conseguir
dormir em condições.
Mas a minha mente não era fácil de enganar, não quando eu
sabia que durante a noite o meu inconsciente pensava que o espectáculo
ocorreria daqui a umas horas.
Eram
agora 6 horas da manha, desisti de vez, era impossível continuar de novo na
cama. Levantei-me e dirigi-me para a casa de banho, ainda notei que a casa
estava escura e silenciosa, bem era natural às seis da manhã. Liguei o chuveiro
e tomei um banho demorado, demasiado demorado, para me acalmar tinha que ser.
Vesti de novo umas calças de ganga escuras, uma camisola larga cinzenta e os
meus all-stars. Escovei o meu cabelo e amarrei-o num rabo-de-cavalo.
Desci
para a cozinha, onde ninguém se encontrava. Decidi começar a preparar o
pequeno-almoço. Comecei a fazer torradas, ovos mexidos, bacon e umas papas de
aveia. Coloquei tudo na mesa mas decidi que faltava algo… Fui até ao jardim das
traseiras e fui buscar algumas gerbérias, as flores preferidas da vovó, já que
iria provavelmente congelar no palco ao menos iria dar-lhe um bom início de Dia
de anos. Olhei agora para o relógio na parede central da cozinha, marcavam
agora 7 da manha, e foi nesse momento que ouvi alguém a descer as escadas.
Era
a vovó e a mãe, ainda com caras de sono, mas depressa a Graça olhou para mim
surpreendida e veio na minha direcção me dar um abraço.
-
Oh bom dia netinha linda. O que vem a ser isto tudo? – Perguntou olhando para a
mesa da cozinha.
-
O pequeno-almoço. – Respondi apenas dirigindo-me para a cadeira onde esperei
por todos.
-
Bom dia filha, que bela surpresa! – Disse a mãe.
Sentámo-nos todas à mesa desfrutando da
refeição juntas. Elas falavam de Will, eu desliguei de novo. Até que depois
vejo que está silencio na sala e as duas estavam a olhar para mim.
-
Sim? – Perguntei
-
Ah filha sempre distraída – reclamava a minha mãe – estávamos a perguntar-te
qual dança iras fazer. – Perguntou levando à boca o café.
Eu
sabia que dança iría fazer… Era uma dança do ventre. O professor Cross queria
recriar uma cena parecida às mil e uma noites, e eu era a preferida do sultão.
Isso tudo porque o meu professor disse que estava na altura de me ver brilhar,
pois já que eu prestava tanta atenção nas aulas devia ser uma excelente
bailarina.
-
Então Sophy? – Perguntou impaciente
-
Dança do ventre. – Respondi envergonhada
-
Ah filha, mas tu és óptima nisso! – Disse minha mãe contente
-
Dá apenas o teu melhor minha neta. – Respondeu minha vovó, percebendo da minha
insegurança.
Sorri
apenas, hoje seria um dia muito atarefado, e infelizmente para mim, eu não
gostava que fosse atarefado, não por estes motivos.
Saí de casa e fui em direcção
ao conservatório buscar o meu fato, enrubesci assim que o vi… Era um fato
vermelho, com um top minúsculo com lantejoulas na parte do peito, e as calças
eram descaídas e de um tecido transparente com lantejoulas também. Levei o fato
comigo e saí o mais rapidamente dali, não suportava os olhares postos em mim,
principalmente das raparigas, pois estavam com um olhar terrível, como se
aplicasse aquele ditado: “Se o olhar matasse”…
Eram cerca de 14 horas e fui em direcção
ao Subway, um restaurante onde rapidamente pedi uma salada de legumes e um iogurte
de maça caramelizada. Paguei e dirigi-me para o carro, onde comi mais uma vez
sem realmente saborear, mas não tinha tempo…
O
meu professor pediu que todos nos fossemos ao cabeleireiro, maquilhadora e
estivéssemos lá no palco as 20 horas em ponto, pois o espectáculo começava às
20:30h. Tendo isso em mente, dirigi-me até à minha cabeleireira preferia, a
Gabriella, ou Gabbi como eu lhe chamava. Esta decidiu soltar-me o cabelo e
fazer-lhe um apanhado com caracóis e alguns brilhantes. Olhei-me ao espelho e
não me reconheci, parecia diferente, mas lá no fundo eu sabia que era eu.
Saí
da cabeleireira e eram cerca de 17 horas… Demorei mais do que queria, vistos
que ainda tinha 3 senhoras à minha frente e tive que esperar. Segui para a
maquilhadora, esta fez-me os olhos esfumados e pintou-me os lábios de
vermelho-sangue, e ainda colocou um brilhante autocolante no meio da minha
testa. Olhei-me e a partir desse momento não me reconheci de todo, esta não era
a Sophy, era outra parecida comigo, só pode.
Fui
depressa para o carro, dirigi com certa pressa para a minha casa, já só tinha
45 minutos até às 20 horas. Estacionei e fui quase a correr, com o saco do fato
na mão e entrei ofegante dentro de casa.
Assim que entrei só vi que tinha a minha
mãe e avó a olhar embasbacadas para mim… Eu não tinha muito tempo para isso,
teria de me despachar, ou então ouviria das boas quando chegasse ao palco.
-
Sophy tas linda! – Disseram ambas e abraçaram-se a mim.
-
Obrigada… – Respondi constrangida, e assim que me largaram corri para o meu
quarto para me vestir.
Entrei
no quarto, joguei o saco para a cama, e comecei a tira-lo para fora. Realmente
era muito provocador e lindo… demasiado lindo para mim. Comecei a vestir o fato
e quando me olhei para o espelho não acreditei que essa era eu, parecia uma
total e completa estranha. Assustei-me quando ouvi o som da porta do quarto
abrir e vi a minha mãe e Graça a entrar.
-
Uau estás linda minha filhinha… – Disse a minha mãe libertando uma lágrima de
felicidade.
-
Verdade netinha, não sei como é que nenhum homem ainda não reparou em ti, deves
estar a guardar-te para alguém especial… – Disse enquanto me piscava o olho. A
minha avó e as suas ideias… Mas ela tinha razão, estava a guardar-me para o
tal, embora ainda não soubesse quem era…
-
Obrigada. – Disse olhando para o relógio com pressa
-
Vá, sabemos que tens de ir minha neta, e obrigada por tudo, vai ser o melhor
presente que alguma vez recebi. – Disse sorrindo maternalmente
-
Obrigada… – Disse dando um beijinho a cada uma. Peguei no meu casaco e saí do
quarto a correr. Apanhei uma pêra para o caso de ter fome depois do espectáculo
e corri até à porta de entrada. Assim que saí esbarrei com alguém, mas tava com
tanta pressa que nem vi quem era, apenas murmurei um desculpe muito baixo e
meti-me no carro.
Conduzi
até ao local onde se iria realizar o espectáculo. Estacionei e entrei ofegante,
e sim, consegui chegar a tempo, faltavam 10 minutos para as 20 horas. Suspirei
de alívio.
-
Olá Sophia, ainda bem que chegou, já estava a ficar preocupado se chegaria a
tempo.
Olhei em volta e depois percebi que era o
meu professor, o Professor Cross. O professor era uma pessoa alta, tinha os
seus 1,78m, era a pessoa mais alta que eu conhecia, Tinha cabelo preto e
comprido e uns músculos enormes. Mas era boa pessoa, apesar dos olhos
assustadores que ele empregava quando errávamos um passo.
-
Olá. – Disse apenas o olhando.
-
Está muito bem arranjada devo dizer, agora descontraia. Sei que é a sua
primeira estreia, por isso tenho um conselho para si. – Disse com um olhar
penetrante
-
Conselho? – Perguntei curiosa
-
Sim, como a senhorita está diferente da sua habitual figura, poderia encarnar
outra personagem. Assim quando a menina fosse dançar, quem dançaria não era a
Sophia mas sim a poderosa e magnifica Cristina! – Disse dramaticamente
-
Cristina? – Perguntei confusa
-
Sim, Cristina ou outra pessoa qualquer. Só não quero é que se sinta com
vergonha. Agora vá descansar e prepare-se que o pano vai subir daqui a 25
minutos.
Fui
para as traseiras do palco e sentei-me num banco alto de lá. Ok Sophy respira e
inspira, faz como o professor disse, sê outra pessoa, sê a Sophia sem vergonha
e que adora se expressar. Estava prestes a convencer-me quando ouvi uma voz a
chamar-me.
-
Sophy! – Disse Jéssica que arrastava consigo o Thomas.
Ao levantar o olhar congelei, o Thomas
tava ali, e a ver-me com trajes inapropriados e para piorar, ia ver-me dançar…
-
Estás bem Sophia? – Disse o Thomas olhando para mim com os seus olhos enormes
castanhos e com o seu cabelo negro como a noite e tê-lo à minha frente com os
seus músculos… Ah não, chega!
-
Olá, sim. – Respondi tentando ficar calma e não parecer assustada, acho que não
me saí muito bem.
-
Vá miga, não fiques assim, vais sair-te muito bem! Vais ver como depois disso
todos vão ficar boquiabertos contigo! – Disse Jéssica enquanto sorria para mim.
-
Sim, ok. – Disse querendo sair dali
-
Então vá, nós vamos estar lá fora na primeira fila com a tua avó e mãe, boa
sorte miga, tou contigo! – Disse dando um beijo na minha bochecha.
-
Boa sorte Sophy. – Disse Thomas dando um beijo na minha bochecha também.
Fiquei paralisada, só os vi afastar, e aí
o medo apoderou-se de mim… O que eu ia fazer? Como eu ia conseguir dançar com
ele a ver-me? Não, eu não podia ser cobarde… Eu tinha prometido à minha avó que
este iria ser o presente de aniversário dela, e assim seria.
-
Sophia venha para aqui! – Chamou o professor
Corri até lá, e após estarmos
todos reunidos ele fez um discurso de encorajamento e disse para fazermos
aquilo de que gostamos e sabemos melhor, dançar. Todos ficaram entusiasmados.
Algumas raparigas me fizeram cara feia quando o professor me chamou à parte
para que eu fizesse como ele me tinha dito, eu seria uma personagem.
Ficamos nas nossas posições e então aí só
ouvi ao de longe… Que suba o pano.
Não sei o que aconteceu, mas
acho que nunca me tinha esforçado tanto para interpretar um papel, eu não era a
tímida Sophy eu era a sensual e destemida Cristina, a favorita do sultão.
Dancei o melhor que sabia até que no fim só ouvia palmas. Voltamos todos para
dentro e todos me deram os parabéns, eu fiquei envergonhada mas consegui
agradecer.
Voltei para a minha família e
reparei que a Jéssica e o Thomas já tinham ido embora, fiquei mais aliviada
assim. Tinha enfrentado uma multidão mas não me tinha preparado para o encarar.
A vovó e a mãe regressaram a casa para receber os convidados da pequena festa
que tinham organizado para a vovó Graça, eu teria ido com elas, mas precisava
de devolver o fato e ainda tinha que tomar um banho e livrar-me da maquilhagem.
Fui para a casa de banho do
palco, e tomei um banho rápido. Vesti umas calças uma camisola larga de cor
bege e calcei os ténis. Entreguei o fato e conduzi rapidamente para casa.
Ao chegar a casa não queria
acreditar em quem via…
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