Capitulo 2 - Que suba o pano

          Estatelei-me no chão do estúdio, estava exausta… Dançar era algo que eu adorava, e realmente era óptima nisso. Dançava de tudo… Dança contemporânea, ballet, tango, salsa, dança do ventre e até hip-hop, mas apesar de ser óptima dançarina, não conseguia mostrar as minhas capacidades para o mundo, demasiado constrangedor.
            Olhei para o relógio afixado, eram 21 horas, estava na hora de ir para casa, mas eu não conseguia… Não sabendo que daqui a dois dias todos os pais, amigos e namorados das pessoas da minha classe me iriam ver a dançar. Só de pensar nisso deu-me um calafrio pela espinha e comecei a suar em bica.
            Não queria ir para casa, mas tinha que descansar e tomar um longo banho para me livrar do nervosismo. Peguei no meu saco, desliguei as luzes e tranquei o estúdio. Dirigi-me para o carro e liguei rapidamente a ignição. Comecei a dirigir para casa, até que finalmente cheguei.
Entrei dentro de casa e logo vi a grande agitação que se dava. Graça e a minha mãe estavam abraçadas e aos pulinhos no meio do hall de entrada. Pousei o saco no chão e fiz uma cara de parva a olhar para elas.
            - Sophy não adivinhas quem vem para cá minha querida! – Gritou a vovó dirigindo-se a mim e abraçando-me não contendo a felicidade que já transbordava pelos seus olhos.
A abracei também questionando-me de quem é que ela estaria a falar. A vovó percebeu a minha confusão e rapidamente se apressou a dizer:
            - Minha querida, o meu neto William vem para cá! – Disse com grande entusiasmo deixando-se cair no banco que tínhamos na entrada.
            A minha mãe dirigiu-se para ela e sentou-se ao seu lado dando-lhe um enorme abraço de conforto que transmitia felicidade. Eu conhecia o neto de Graça, mas não muito bem, sei que se chamava William e que desde que a sua mãe faleceu ele viveu com o pai em Inglaterra, Londres. Ele é 7 anos mais velho que eu, e sei que se formou em Medicina e Graça não o vê há mais de 2 anos
            No entanto, eu sabia o quanto Graça adorava o seu neto, era como se fosse o seu menino, a sua preciosidade. Apressei-me a dizer que estava feliz por ela finalmente voltar a ver o neto, estava mesmo contente pela felicidade dela, mas apenas consegui dizer a minha felicidade em meras palavras.
            - Que bom Graça. – Disse esperando que Graça percebesse que eu estava realmente feliz, e felizmente ela percebeu.
            - Obrigada Sophy! Foi uma surpresa para mim quando ele ligou a dizer que ia fazer cá o Doutoramento e que tinha muitas saudades minhas. Fiquei tão feliz por ver o meu menino cá comigo… Pena que ele não chega a tempo dos meus anos, mas não faz mal. – Disse sentindo-se a transbordar de felicidade.
            A minha mãe olhou para mim a sorrir e depois lembrou-se de algo e perguntou-me:
            - Sophy como correu o treino para o espectáculo?
            Fiz um esgar, só de pensar que eu não estaria nesta situação se Graça não tivesse pedido que eu actuasse como prenda de aniversário para ela, eu fui incapaz de lhe fazer a desfeita…
            - Bem. – Disse apenas dirigindo-me para o andar de cima para tomar um banho relaxante.
Primeiro pus o meu saco e consequentemente a roupa suada para lavar. Dirigi-me para o meu quarto e peguei na minha roupa interior e no meu pijama amarelo com bordados nas mangas. Voltei à casa de banho onde entrei rapidamente para o duche.
            A água quente começou a descontrair os meus músculos imediatamente que agora devido ao meu esforço diário, eles pareciam começar a ficar a doer após os treinos. Coloquei uma boa dose de champô de morango no meu cabelo agora solto do elástico, começando a esfregar descontraidamente. Morango era um dos meus odores preferidos, conseguia relaxar-me como se tivesse numa consulta de aromaterapia.
            Logo de seguida, enxaguei o cabelo, pus amaciador de amoras nas pontas. Apanhei a minha esponja rosa e coloquei lá o meu gel de duche com cheiro a baunilha. Comecei a passar no meu corpo com movimentos circulares ao mesmo tempo que tentava massajar os meus músculos doridos.
Enxaguei-me e enrolei-me na toalha. Sequei-me e vesti o meu pijama rapidamente. Sequei o cabelo muito depressa com a toalha e escovei-o para me livrar dos nós que se tinham formado. Estava pronta.
            Fui ao andar de baixo, onde a Graça e a mãe estavam a ver TV, passei por elas e reparei que era a novela das 22:30h. Dirigi-me à cozinha onde estava um pedaço de lasanha de vegetais – eu era vegetariana – e aqueci no microondas. Enquanto o cheiro dos orégãos e dos vegetais se dissipava na cozinha, enchi um copo com sumo de laranja e esperei ao pé do microondas a comida.
            Retirei a lasanha e dirigi-me para a sala no meu canto do sofá preferido. Comecei a comer devagar a lasanha e ver a novela com a minha família. Realmente não se percebe nada das novelas, então assim que terminei levantei-me do sofá e fui lavar a loiça.
Deixei a loiça enxaguar e quando olhei para o relógio vi que eram cerca de 23 horas. Eu tinha que ir descansar, pelo menos até o dia do espectáculo chegar, que era daqui a dois dias, e para meu azar, era no mesmo dia que os anos da vovó Graça.
            - Vou dormir. – Anunciei parada no meio da sala.
            - Já vais dormir filha?! Mas é Sexta à noite! Não vais sair com os teus amigos, ou com algum rapaz? … - Perguntou a minha mãe com cara de poucos amigos.
            - Não, vou apenas dormir. – Disse a bocejar, e ligeiramente farta das investidas da minha mãe para que eu fosse mais social.
            - Durma bem netinha, deves estar cansada e tens que descansar para o espectáculo. – Disse a vovó com um sorriso de orelha a orelha.
            - Dorme bem então filha. – A mãe disse com uma voz de desistente, mas eu sabia que era apenas por hoje.
Sorri pela pequena vitória e escapei para o quarto. Fechei as cortinas azul-turquesa e dirigi-me para a cama, onde puxei o meu edredão castanho com flores azuis. Meti-me dentro da cama e rapidamente adormeci permitindo-me a mim sonhar.
            Acordei por volta das cinco da manha, dei voltas e voltas na cama mas simplesmente não consegui adormecer… Continuei deitada na cama envolta nos meus cobertores, olhei para o relógio e vi que eram agora 5:30h, ainda era muito cedo para me levantar. Não consegui dormir muito bem esta noite, sabia que o espectáculo seria hoje à noite… anteontem adormeci mais facilmente, mas ontem com os treinos e tudo mais pensei que tivesse suficientemente cansada para conseguir dormir em condições. Mas a minha mente não era fácil de enganar, não quando eu sabia que durante a noite o meu inconsciente pensava que o espectáculo ocorreria daqui a umas horas.
            Eram agora 6 horas da manha, desisti de vez, era impossível continuar de novo na cama. Levantei-me e dirigi-me para a casa de banho, ainda notei que a casa estava escura e silenciosa, bem era natural às seis da manhã. Liguei o chuveiro e tomei um banho demorado, demasiado demorado, para me acalmar tinha que ser. Vesti de novo umas calças de ganga escuras, uma camisola larga cinzenta e os meus all-stars. Escovei o meu cabelo e amarrei-o num rabo-de-cavalo.
            Desci para a cozinha, onde ninguém se encontrava. Decidi começar a preparar o pequeno-almoço. Comecei a fazer torradas, ovos mexidos, bacon e umas papas de aveia. Coloquei tudo na mesa mas decidi que faltava algo… Fui até ao jardim das traseiras e fui buscar algumas gerbérias, as flores preferidas da vovó, já que iria provavelmente congelar no palco ao menos iria dar-lhe um bom início de Dia de anos. Olhei agora para o relógio na parede central da cozinha, marcavam agora 7 da manha, e foi nesse momento que ouvi alguém a descer as escadas.
            Era a vovó e a mãe, ainda com caras de sono, mas depressa a Graça olhou para mim surpreendida e veio na minha direcção me dar um abraço.
            - Oh bom dia netinha linda. O que vem a ser isto tudo? – Perguntou olhando para a mesa da cozinha.
            - O pequeno-almoço. – Respondi apenas dirigindo-me para a cadeira onde esperei por todos.
            - Bom dia filha, que bela surpresa! – Disse a mãe.
Sentámo-nos todas à mesa desfrutando da refeição juntas. Elas falavam de Will, eu desliguei de novo. Até que depois vejo que está silencio na sala e as duas estavam a olhar para mim.
            - Sim? – Perguntei
            - Ah filha sempre distraída – reclamava a minha mãe – estávamos a perguntar-te qual dança iras fazer. – Perguntou levando à boca o café.
            Eu sabia que dança iría fazer… Era uma dança do ventre. O professor Cross queria recriar uma cena parecida às mil e uma noites, e eu era a preferida do sultão. Isso tudo porque o meu professor disse que estava na altura de me ver brilhar, pois já que eu prestava tanta atenção nas aulas devia ser uma excelente bailarina.
            - Então Sophy? – Perguntou impaciente
            - Dança do ventre. – Respondi envergonhada
            - Ah filha, mas tu és óptima nisso! – Disse minha mãe contente
            - Dá apenas o teu melhor minha neta. – Respondeu minha vovó, percebendo da minha insegurança.
            Sorri apenas, hoje seria um dia muito atarefado, e infelizmente para mim, eu não gostava que fosse atarefado, não por estes motivos.
Saí de casa e fui em direcção ao conservatório buscar o meu fato, enrubesci assim que o vi… Era um fato vermelho, com um top minúsculo com lantejoulas na parte do peito, e as calças eram descaídas e de um tecido transparente com lantejoulas também. Levei o fato comigo e saí o mais rapidamente dali, não suportava os olhares postos em mim, principalmente das raparigas, pois estavam com um olhar terrível, como se aplicasse aquele ditado: “Se o olhar matasse”…
Eram cerca de 14 horas e fui em direcção ao Subway, um restaurante onde rapidamente pedi uma salada de legumes e um iogurte de maça caramelizada. Paguei e dirigi-me para o carro, onde comi mais uma vez sem realmente saborear, mas não tinha tempo…
            O meu professor pediu que todos nos fossemos ao cabeleireiro, maquilhadora e estivéssemos lá no palco as 20 horas em ponto, pois o espectáculo começava às 20:30h. Tendo isso em mente, dirigi-me até à minha cabeleireira preferia, a Gabriella, ou Gabbi como eu lhe chamava. Esta decidiu soltar-me o cabelo e fazer-lhe um apanhado com caracóis e alguns brilhantes. Olhei-me ao espelho e não me reconheci, parecia diferente, mas lá no fundo eu sabia que era eu.
            Saí da cabeleireira e eram cerca de 17 horas… Demorei mais do que queria, vistos que ainda tinha 3 senhoras à minha frente e tive que esperar. Segui para a maquilhadora, esta fez-me os olhos esfumados e pintou-me os lábios de vermelho-sangue, e ainda colocou um brilhante autocolante no meio da minha testa. Olhei-me e a partir desse momento não me reconheci de todo, esta não era a Sophy, era outra parecida comigo, só pode.
            Fui depressa para o carro, dirigi com certa pressa para a minha casa, já só tinha 45 minutos até às 20 horas. Estacionei e fui quase a correr, com o saco do fato na mão e entrei ofegante dentro de casa.
Assim que entrei só vi que tinha a minha mãe e avó a olhar embasbacadas para mim… Eu não tinha muito tempo para isso, teria de me despachar, ou então ouviria das boas quando chegasse ao palco.
            - Sophy tas linda! – Disseram ambas e abraçaram-se a mim.
            - Obrigada… – Respondi constrangida, e assim que me largaram corri para o meu quarto para me vestir.
            Entrei no quarto, joguei o saco para a cama, e comecei a tira-lo para fora. Realmente era muito provocador e lindo… demasiado lindo para mim. Comecei a vestir o fato e quando me olhei para o espelho não acreditei que essa era eu, parecia uma total e completa estranha. Assustei-me quando ouvi o som da porta do quarto abrir e vi a minha mãe e Graça a entrar.
            - Uau estás linda minha filhinha… – Disse a minha mãe libertando uma lágrima de felicidade.
            - Verdade netinha, não sei como é que nenhum homem ainda não reparou em ti, deves estar a guardar-te para alguém especial… – Disse enquanto me piscava o olho. A minha avó e as suas ideias… Mas ela tinha razão, estava a guardar-me para o tal, embora ainda não soubesse quem era…
            - Obrigada. – Disse olhando para o relógio com pressa
            - Vá, sabemos que tens de ir minha neta, e obrigada por tudo, vai ser o melhor presente que alguma vez recebi. – Disse sorrindo maternalmente
            - Obrigada… – Disse dando um beijinho a cada uma. Peguei no meu casaco e saí do quarto a correr. Apanhei uma pêra para o caso de ter fome depois do espectáculo e corri até à porta de entrada. Assim que saí esbarrei com alguém, mas tava com tanta pressa que nem vi quem era, apenas murmurei um desculpe muito baixo e meti-me no carro.
            Conduzi até ao local onde se iria realizar o espectáculo. Estacionei e entrei ofegante, e sim, consegui chegar a tempo, faltavam 10 minutos para as 20 horas. Suspirei de alívio.
            - Olá Sophia, ainda bem que chegou, já estava a ficar preocupado se chegaria a tempo.
Olhei em volta e depois percebi que era o meu professor, o Professor Cross. O professor era uma pessoa alta, tinha os seus 1,78m, era a pessoa mais alta que eu conhecia, Tinha cabelo preto e comprido e uns músculos enormes. Mas era boa pessoa, apesar dos olhos assustadores que ele empregava quando errávamos um passo.
            - Olá. – Disse apenas o olhando.
            - Está muito bem arranjada devo dizer, agora descontraia. Sei que é a sua primeira estreia, por isso tenho um conselho para si. – Disse com um olhar penetrante
            - Conselho? – Perguntei curiosa
            - Sim, como a senhorita está diferente da sua habitual figura, poderia encarnar outra personagem. Assim quando a menina fosse dançar, quem dançaria não era a Sophia mas sim a poderosa e magnifica Cristina! – Disse dramaticamente
            - Cristina? – Perguntei confusa
            - Sim, Cristina ou outra pessoa qualquer. Só não quero é que se sinta com vergonha. Agora vá descansar e prepare-se que o pano vai subir daqui a 25 minutos.
            Fui para as traseiras do palco e sentei-me num banco alto de lá. Ok Sophy respira e inspira, faz como o professor disse, sê outra pessoa, sê a Sophia sem vergonha e que adora se expressar. Estava prestes a convencer-me quando ouvi uma voz a chamar-me.
            - Sophy! – Disse Jéssica que arrastava consigo o Thomas.
Ao levantar o olhar congelei, o Thomas tava ali, e a ver-me com trajes inapropriados e para piorar, ia ver-me dançar…
            - Estás bem Sophia? – Disse o Thomas olhando para mim com os seus olhos enormes castanhos e com o seu cabelo negro como a noite e tê-lo à minha frente com os seus músculos… Ah não, chega!
            - Olá, sim. – Respondi tentando ficar calma e não parecer assustada, acho que não me saí muito bem.
            - Vá miga, não fiques assim, vais sair-te muito bem! Vais ver como depois disso todos vão ficar boquiabertos contigo! – Disse Jéssica enquanto sorria para mim.
            - Sim, ok. – Disse querendo sair dali
            - Então vá, nós vamos estar lá fora na primeira fila com a tua avó e mãe, boa sorte miga, tou contigo! – Disse dando um beijo na minha bochecha.
            - Boa sorte Sophy. – Disse Thomas dando um beijo na minha bochecha também.
Fiquei paralisada, só os vi afastar, e aí o medo apoderou-se de mim… O que eu ia fazer? Como eu ia conseguir dançar com ele a ver-me? Não, eu não podia ser cobarde… Eu tinha prometido à minha avó que este iria ser o presente de aniversário dela, e assim seria.
            - Sophia venha para aqui! – Chamou o professor
Corri até lá, e após estarmos todos reunidos ele fez um discurso de encorajamento e disse para fazermos aquilo de que gostamos e sabemos melhor, dançar. Todos ficaram entusiasmados. Algumas raparigas me fizeram cara feia quando o professor me chamou à parte para que eu fizesse como ele me tinha dito, eu seria uma personagem.
Ficamos nas nossas posições e então aí só ouvi ao de longe… Que suba o pano.
Não sei o que aconteceu, mas acho que nunca me tinha esforçado tanto para interpretar um papel, eu não era a tímida Sophy eu era a sensual e destemida Cristina, a favorita do sultão. Dancei o melhor que sabia até que no fim só ouvia palmas. Voltamos todos para dentro e todos me deram os parabéns, eu fiquei envergonhada mas consegui agradecer.
Voltei para a minha família e reparei que a Jéssica e o Thomas já tinham ido embora, fiquei mais aliviada assim. Tinha enfrentado uma multidão mas não me tinha preparado para o encarar. A vovó e a mãe regressaram a casa para receber os convidados da pequena festa que tinham organizado para a vovó Graça, eu teria ido com elas, mas precisava de devolver o fato e ainda tinha que tomar um banho e livrar-me da maquilhagem.
Fui para a casa de banho do palco, e tomei um banho rápido. Vesti umas calças uma camisola larga de cor bege e calcei os ténis. Entreguei o fato e conduzi rapidamente para casa.
Ao chegar a casa não queria acreditar em quem via…

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