Estava a terminar o meu pequeno-almoço. A
casa estava silenciosa, mais silenciosa do que o normal, a mãe e a vovó estavam
a trabalhar na decoração do apartamento do William, vistos que ele não gostava
do estilo actual. Sentia a casa mais vazia, no entanto não me incomodava, eu
até gostava do silêncio.
Terminei de comer
e pus a loiça na pia para lavar. Comecei a lavá-la e pu-la a secar. Fechei a
janela da cozinha que dava vista para o jardim das traseiras, pois estávamos já
em Outubro e já começava a ficar bastante frio aqui.
Quando terminei, fui buscar o meu casaco preto ao velho cabide de
madeira velha do hall de entrada e peguei na mala que estava no banco.
Dirigi-me à cómoda da sala onde fui buscar a carta da Faculdade de Maryland.
Saí de casa e fui
para o meu Corolla. Liguei o carro e pus-me a conduzir na direcção à Faculdade
de Maryland. Eu nem queria acreditar que isto estava a acontecer… Lembro-me
perfeitamente de quando terminei o secundário e quis-me candidatar a esta
Universidade, mas infelizmente não tínhamos posses para que eu andasse lá a
estudar, e agora estava a caminho de lá…
Recordo-me tão bem quando abri a carta…
- Mãe, vovó eu…
- O que foi
Sophy? – Perguntou a mãe sentando-se ao meu lado.
Não conseguia falar sequer… Estava atónica quando entreguei a
carta para a minha mãe ler, eu não era capaz de dizer nada neste momento…
- Tens uma bolsa
para a Universidade de Maryland?! – Perguntou a mãe com a voz a demonstrar a
enorme surpresa.
Abanei a cabeça
para confirmar o que a minha mãe dizia… Até que a avó chegou ao pé de mim e
perguntou:
- Mas porque é
que ganhaste uma bolsa na Universidade querida? – Disse ternamente.
Encolhi os
ombros, não sabia mesmo o motivo de tal, só li o início da carta onde me
informava que tinha direito a uma bolsa. O motivo? Bem pouco interessava para
mim, mas agora estava curiosa… olhei para a minha mãe para saber se ela saberia
de algo. Limitou-se a olhar para a carta e apenas disse que não havia nada na
carta a explicar.
Apenas dizia para me apresentar na Universidade para falar com o
Director e para começarmos a organizar tudo para eu estudar lá.
E agora aqui estava eu, a conduzir para
uma das melhores Universidades da zona, para o qual eu lutei muito para entrar
há um ano, mas não consegui… Agora iria entrar, e estudar dança como quis à um
ano… Afinal a vovó tinha razão, quem espera sempre alcança.
Estava a uns meros minutos da Faculdade,
eu sabia que tinha que me apresentar ao Director às 9 horas em ponto. Olhei para as
horas no tablier do carro e acusava 8:30h. Tempo suficiente para chegar à
universidade e para estacionar. Finalmente tinha chegado, olhei para o edifício
da faculdade, este era bastante alto, teria uns 3 andares e era enorme…
certamente não era o melhor sítio para alguém se perder, alguém como eu…
Começou então a primeira dificuldade do dia… Encontrar o
estacionamento destinado a alunos. Entrei na universidade passando os grandes
portões verdes escuros, havia duas vias para carros, a da esquerda e da
direita, infelizmente não havia nenhuma placa para indicar o caminho do
estacionamento dos estudantes. Tirei à sorte e escolhi o caminho da esquerda.
Virei para a
esquerda e encontrei um parque de estacionamento, estava a dar a volta para
estacionar quando vejo uma placa a indicar que este parque era para os
professores… Ups – Pensei.
Dei meia volta e voltei para o caminho da direita e aí finalmente
descobri um parque de estacionamento. Verifiquei se tinha alguma placa e
felizmente tinha, era o parque para os estudantes. Estacionei cuidadosamente
com medo de bater em algum carro já estacionado.
Saí do carro com
a bolsa e senti-me pequena… A faculdade era monstruosa! Era um edifício enorme
com três andares e com paredes cor de bordou. Procurei uma entrada para me
poder informar onde poderia encontrar o Senhor Reitor. Encontrei uma entrada a
poucos metros de onde me encontrava inicialmente e decidi entrar.
Era uma grande sala, penso que era a sala de recepção. Tinha num
canto 4 secretárias a formarem um quadrado com 4 senhoras ocupadas a mexer em
papéis, atender telefones e a procurar informações no computador que tinham disponível
em cada secretária. Tinha uns sofás laranjas e ao longo das paredes havia
montes de quadros com fotografias de alunos a receberem prémios e ao fundo da
sala havia uma porta de vidro com uma grande estante a rodeá-la, esta tinha
prémios e troféus que penso que pertenceriam à universidade.
Dirigi-me para
uma senhora que estava a arquivar papeis. Esta era loira, tinha o cabelo
apanhado formando uma pequena bola atrás da cabeça. Usava óculos, era bastante
magrinha e usava apenas uma camisola de manga comprida lilás – acho que eu é
que era friorenta – e estaria na casa dos seus 55 anos.
- Desculpe… –
Disse tímida para a senhora. Esta acabou por olhar para mim tirando os olhos
dos arquivos.
- Sim, o que quer
a menina? – Perguntou rudemente.
- Hum… Recebi uma
carta. – Disse mostrando-a.
Esta tirou a carta da minha mão e começou a ler. No fim olhou para
mim, entregou-me de novo a carta e apenas me disse:
- O senhor Reitor
está na sua sala, esta encontra-se no 3º piso na sala 1. – Disse virando-se de
novo para os papéis.
Retirei-me de ao
pé da senhora e encaminhei-me para a porta ao fundo da sala. Ao passa-la soube
que já teria um sitio para ficar quando tivesse na altura de almoçar – a
biblioteca.
Encaminhei-me pelo corredor e passei pela porta da biblioteca,
quase tive um ataque… Milhares de estantes de livros, desde o chão até ao
tecto, até tínhamos escadotes à nossa disposição para pegar os livros do topo.
Era inacreditável. Tinham uns sofás de pele castanhos com uns tapetes ao pé.
Continha secretárias com computadores disponíveis para pesquisas e inclusive
tinha bastantes mesas de trabalho. Sentia-me muito bem ali.
Olhei para o
relógio eram agora 8:50h. Com grande pena minha, não pude ficar tanto tempo
quanto desejaria, tinha que me apressar a chegar à sala do reitor.
Encaminhei-me para o 1º andar a correr. Segui pelo corredor e encontrei a
escada que me levaria até ao 2º andar. Subi por ela a correr e quase que ia
caindo num degrau, mas felizmente recuperei o equilíbrio.
Cheguei ao segundo andar e era só salas, tal como no 1º andar…
Orientar-me ali seria difícil, lamentei-me… Não tinha mais tempo, subi por fim
as últimas escadas e finalmente, ofegante, cheguei ao terceiro andar. Ofegante
procurei pela sala, até que finalmente descobri a sala onde estaria o reitor,
estava ao lado um quadrado de vidro – pelo menos parecia vidro – aparafusado à
parede com o número 1 a
preto, para além disso havia uma placa na porta de madeira a dizer: “Reitor
Simon”. Olhei para o relógio afixado na parede sul do edifício e faltavam
apenas um minuto para as 9 horas.
Assim que o
ponteiro bateu as nove, eu bati na porta.
- Entre. –
Ordenou uma voz bastante grave vinda de dentro da sala.
Entrei sem fazer qualquer barulho e
fiquei à porta esperando qualquer ordem ou algo do género.
- O que quer a
Senhorita? Tá perdida? – Perguntou olhando para mim
- Não, tenho uma
carta sua… – Disse envergonhada
- Ah porque não
disse logo, entre Senhorita Sophia. – Disse para mim com um sorriso.
Fechei a porta sem fazer qualquer ruído e
sentei-me na cadeira à frente da sua secretária de madeira pinho. O reitor
estava distraído à procura de uns papéis e assim, aproveitei para tirar a carta
da mala e para o analisar: era um senhor com os seus 56 anos, tinha barba
escura com algumas partes brancas, já lhe faltava algum cabelo e tinha uma cara
bolachuda.
- Muito bem Senhorita Sophia, você sabe o
motivo da sua vinda aqui? – Perguntou o Reitor Simon
- Sim. – Respondi e dei-lhe a carta.
- Eu sei, recebeu uma bolsa de estudos
para o nosso curso de dança, e sabe o porquê? – Sorriu para mim
- Não… – Respondi, eu não sabia o motivo,
só sabia que era uma honra entrar nesta prestigiada universidade.
- Bem sabe, o que acontece é que o nosso
procurador estava no espectáculo organizado pelo seu antigo conservatório,
estava lá por motivos pessoais, e a senhorita apareceu e segundo o relatório do
nosso procurador a senhorita foi incrível, então devido a tal relatório
decidimos em conselho oferecer-lhe uma bolsa para estudar aqui na nossa
universidade. – Disse olhando para mim
Eu não sabia o que dizer, apenas muito
mas muito obrigada, no entanto as palavras não me saiam…
- Bem, senhorita o que resta saber é se
aceita estudar no nosso estabelecimento de ensino. Então aceita? – Perguntou-me
- Sim senhor. – Disse com voz muito baixa
- Esplêndido! – Disse com um sorriso –
Com a sua aquisição de certeza que a escola ganhará mais alguns prémios em dança. Bem senhorita,
as suas aulas irão começar daqui a 2 dias, pois terá de tratar de papelada e
terá de recolher o seu horário na sala da recepção. – Disse enquanto escrevia
num papel qualquer coisa.
- Tome senhorita, aqui tem o papel que
terá de entregar à dona Dulce, ela é que facultar-lhe-á todas as informações
necessárias.
Levantei-me da cadeira, agarrei no papel e pu-lo na mala. Ia
dirigir-me à porta quando o Senhor Reitor me disse algo e que me fez parar para
ouvi-lo:
- Esperemos que
se sinta confortável connosco, agora só lhe desejo boa sorte Sophia, e
Bem-vinda à Universidade de Maryland.
Agradeci e saí da sala. Desci todos os
lances de escada até chegar de novo á sala da recepção. Entrei e li a
identificação de todas as secretárias, a dona Dulce era a que estava ao
computador. Dirigi-me até ela e disse:
- Hum… Desculpe, mas o director deu-me
isto… – Entreguei-lhe o papel.
Ela desviou a atenção do computador e
olhou para o papel. Rapidamente foi buscar um papel que parecia uma lista e de
seguida foi buscar outros dois papéis, um mais pequeno e quadrangular e outro
do tamanho normal de uma folha de papel.
- Aqui tem menina, este papel é o seu
horário, este papel aqui é o que indica os seus livros e por fim, este aqui é
para vir assinado no seu primeiro dia de aulas, é importante porque fala sobre
a sua bolsa. – Disse entregando-me os papéis.
- Obrigada… – Disse enquanto colocava os
papéis na bolsa excepto a folha referente aos livros. Fiquei a olhar para esta…
- A menina arranja os livros na
biblioteca, pode pedir para tirar fotocópia de cada livro que como tem bolsa,
não irá pagar. – Disse percebendo a minha confusão.
Agradeci e encaminhei-me para a
biblioteca, esta estava deserta, não percebi o motivo, pois no horário afixado
na porta esta não fechava. Encaminhei-me por entre as estantes sentindo-me cada
vez pequena até que ouvi alguém…
- Quem está aí? – Era uma voz grave e
arranhada
Arrepiei-me e saí de entre das estantes e vi um homem pequenino
velhote, quase que parecia um duende, mas a sua voz dizia o contrário, sempre
pensava que os duendes teriam uma voz aguda…
- Que fazes aqui
minha pequena? – Perguntou o homem
Pequena? – Pensei comigo mesma…
- Queria uns
livros… – Disse
- Para fotocópia?
– Perguntou intrigado a olhar para mim
Entreguei-lhe a folha e ele percebeu imediatamente o que eu
precisava, dirigiu-se para a sua cadeira e sentou-se. Procurou algo no
computador e de seguida levantou-se num pulo e foi buscar os livros.
- Pronto, estes
são os livros, mas aqui no papel indica que tens uma bolsa de estudos, então eu
vou tirar fotocópia deles e depois vens busca-las no primeiro dia de aulas ok?
– Perguntou o homem.
- Ok. – Respondi
dirigindo-me para a saída.
Saí do edifício e
encaminhei-me para o parque de estacionamento, agora atulhado de carros de
estudantes, contei pelo menos 5 Ferrari, 3 volvos e 1 BMW. Entrei no meu
Corolla e encaminhei-me para casa, olhei para o painel do carro e este acusava
11 horas. Dirigi para casa, esperava até que esta tivesse vazia, mas
enganei-me…
Estacionei e
entrei em casa, lá estavam a minha mãe e a vovó Graça, pareciam contentes e
exaustas. Coloquei a minha mala no chão e fui em direcção delas.
- Olá. – Disse
sentando-me à mesa
- Olá querida,
como foi a visita à universidade? – Perguntou a vovó enquanto compunha uma
jarra de flores no centro da mesa da cozinha.
- Bem, muito bem.
– Respondi enquanto punha um pedaço de pão na boca e mastigava.
- Ainda bem minha
filha. – Disse a mãe enquanto punha o almoço na mesa.
Servi-me de arroz de espinafres e de cogumelos salteados. Comi
bastante descansada aproveitando e saboreando cada garfada que punha na boca.
Terminei de almoçar e esperei na mesa ouvindo a conversa.
- Ficou mesmo
muito bem. – Disse a avó
- Muito bem
mesmo, mas amanha é a sala e o quarto. – Respondeu a mãe.
Ah pois, a mama e a avó tinham ido
decorar o apartamento do William, não sei como ficou mas tenho a certeza que
ficou bastante bem. Levantei-me da mesa e preparei a minha mala de treinos,
meti lá uma toalha, uma maça e uma garrafa de água. Subi para o quarto onde
vesti o meu fato de treino, ele consistia numas calças largas cinzentas e uma
camisola de manga curta preta. Calcei uns ténis e dirigi-me para o andar de
baixo.
- Onde vais filha? – Perguntou a mãe.
- Estúdio. – Respondi já saindo de casa.
Saí de casa e fui a conduzir para o meu estúdio. Assim que entrei
larguei o saco, o casaco e comecei a praticar algo que eu raramente fazia:
Hip-hop
Dancei muito…
Dancei durante umas 4 horas e quando olhei para o relógio vi que eram 18 horas.
Saí do estúdio, entrei dentro do carro. Dirigi para casa e assim que cheguei
estacionei e dirigi-me logo para a entrada.
- Olá querida,
como correu os treinos? – Perguntou a mãe.
- Bem mama. –
Respondi
- Muito bem,
agora vai tomar banho e desce para o jantar, daqui a uma hora está pronto. –
Informou
Dirigi-me para a casa de banho, comecei a tomar banho
descontraidamente e logo a seguir vesti o pijama de sempre.
Escovei o cabelo e dirigi-me para o andar de baixo, onde reparei
que já estava a mesa a ser posta. Sentei-me na cadeira do costume e esperei
pelo jantar desfrutando apenas da companhia da mãe e da Graça.
O jantar era
carne estufada com massa… Mas para mim, a mãe fez tofu com massa de tomate.
Comi descontraidamente a pensar como seriam as minhas aulas daqui para diante
na Universidade.
Eu não sabia o
que esperar, só esperava que fosse bem aceite e que tivesse um bom desempenho…
Sim, era tudo o que eu pedia por agora.
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