Capítulo 4 - Faculdade

Estava a terminar o meu pequeno-almoço. A casa estava silenciosa, mais silenciosa do que o normal, a mãe e a vovó estavam a trabalhar na decoração do apartamento do William, vistos que ele não gostava do estilo actual. Sentia a casa mais vazia, no entanto não me incomodava, eu até gostava do silêncio.
            Terminei de comer e pus a loiça na pia para lavar. Comecei a lavá-la e pu-la a secar. Fechei a janela da cozinha que dava vista para o jardim das traseiras, pois estávamos já em Outubro e já começava a ficar bastante frio aqui.
Quando terminei, fui buscar o meu casaco preto ao velho cabide de madeira velha do hall de entrada e peguei na mala que estava no banco. Dirigi-me à cómoda da sala onde fui buscar a carta da Faculdade de Maryland.
            Saí de casa e fui para o meu Corolla. Liguei o carro e pus-me a conduzir na direcção à Faculdade de Maryland. Eu nem queria acreditar que isto estava a acontecer… Lembro-me perfeitamente de quando terminei o secundário e quis-me candidatar a esta Universidade, mas infelizmente não tínhamos posses para que eu andasse lá a estudar, e agora estava a caminho de lá…
Recordo-me tão bem quando abri a carta…
            - Mãe, vovó eu…
            - O que foi Sophy? – Perguntou a mãe sentando-se ao meu lado.
Não conseguia falar sequer… Estava atónica quando entreguei a carta para a minha mãe ler, eu não era capaz de dizer nada neste momento…
            - Tens uma bolsa para a Universidade de Maryland?! – Perguntou a mãe com a voz a demonstrar a enorme surpresa.
            Abanei a cabeça para confirmar o que a minha mãe dizia… Até que a avó chegou ao pé de mim e perguntou:
            - Mas porque é que ganhaste uma bolsa na Universidade querida? – Disse ternamente.
            Encolhi os ombros, não sabia mesmo o motivo de tal, só li o início da carta onde me informava que tinha direito a uma bolsa. O motivo? Bem pouco interessava para mim, mas agora estava curiosa… olhei para a minha mãe para saber se ela saberia de algo. Limitou-se a olhar para a carta e apenas disse que não havia nada na carta a explicar.
Apenas dizia para me apresentar na Universidade para falar com o Director e para começarmos a organizar tudo para eu estudar lá.
E agora aqui estava eu, a conduzir para uma das melhores Universidades da zona, para o qual eu lutei muito para entrar há um ano, mas não consegui… Agora iria entrar, e estudar dança como quis à um ano… Afinal a vovó tinha razão, quem espera sempre alcança.
Estava a uns meros minutos da Faculdade, eu sabia que tinha que me apresentar ao Director às 9 horas em ponto. Olhei para as horas no tablier do carro e acusava 8:30h. Tempo suficiente para chegar à universidade e para estacionar. Finalmente tinha chegado, olhei para o edifício da faculdade, este era bastante alto, teria uns 3 andares e era enorme… certamente não era o melhor sítio para alguém se perder, alguém como eu…
Começou então a primeira dificuldade do dia… Encontrar o estacionamento destinado a alunos. Entrei na universidade passando os grandes portões verdes escuros, havia duas vias para carros, a da esquerda e da direita, infelizmente não havia nenhuma placa para indicar o caminho do estacionamento dos estudantes. Tirei à sorte e escolhi o caminho da esquerda.
            Virei para a esquerda e encontrei um parque de estacionamento, estava a dar a volta para estacionar quando vejo uma placa a indicar que este parque era para os professores… Ups – Pensei.
Dei meia volta e voltei para o caminho da direita e aí finalmente descobri um parque de estacionamento. Verifiquei se tinha alguma placa e felizmente tinha, era o parque para os estudantes. Estacionei cuidadosamente com medo de bater em algum carro já estacionado.
            Saí do carro com a bolsa e senti-me pequena… A faculdade era monstruosa! Era um edifício enorme com três andares e com paredes cor de bordou. Procurei uma entrada para me poder informar onde poderia encontrar o Senhor Reitor. Encontrei uma entrada a poucos metros de onde me encontrava inicialmente e decidi entrar.
Era uma grande sala, penso que era a sala de recepção. Tinha num canto 4 secretárias a formarem um quadrado com 4 senhoras ocupadas a mexer em papéis, atender telefones e a procurar informações no computador que tinham disponível em cada secretária. Tinha uns sofás laranjas e ao longo das paredes havia montes de quadros com fotografias de alunos a receberem prémios e ao fundo da sala havia uma porta de vidro com uma grande estante a rodeá-la, esta tinha prémios e troféus que penso que pertenceriam à universidade.
            Dirigi-me para uma senhora que estava a arquivar papeis. Esta era loira, tinha o cabelo apanhado formando uma pequena bola atrás da cabeça. Usava óculos, era bastante magrinha e usava apenas uma camisola de manga comprida lilás – acho que eu é que era friorenta – e estaria na casa dos seus 55 anos.
            - Desculpe… – Disse tímida para a senhora. Esta acabou por olhar para mim tirando os olhos dos arquivos.
            - Sim, o que quer a menina? – Perguntou rudemente.
            - Hum… Recebi uma carta. – Disse mostrando-a.
Esta tirou a carta da minha mão e começou a ler. No fim olhou para mim, entregou-me de novo a carta e apenas me disse:
            - O senhor Reitor está na sua sala, esta encontra-se no 3º piso na sala 1. – Disse virando-se de novo para os papéis.
            Retirei-me de ao pé da senhora e encaminhei-me para a porta ao fundo da sala. Ao passa-la soube que já teria um sitio para ficar quando tivesse na altura de almoçar – a biblioteca.
Encaminhei-me pelo corredor e passei pela porta da biblioteca, quase tive um ataque… Milhares de estantes de livros, desde o chão até ao tecto, até tínhamos escadotes à nossa disposição para pegar os livros do topo. Era inacreditável. Tinham uns sofás de pele castanhos com uns tapetes ao pé. Continha secretárias com computadores disponíveis para pesquisas e inclusive tinha bastantes mesas de trabalho. Sentia-me muito bem ali.
            Olhei para o relógio eram agora 8:50h. Com grande pena minha, não pude ficar tanto tempo quanto desejaria, tinha que me apressar a chegar à sala do reitor. Encaminhei-me para o 1º andar a correr. Segui pelo corredor e encontrei a escada que me levaria até ao 2º andar. Subi por ela a correr e quase que ia caindo num degrau, mas felizmente recuperei o equilíbrio.
Cheguei ao segundo andar e era só salas, tal como no 1º andar… Orientar-me ali seria difícil, lamentei-me… Não tinha mais tempo, subi por fim as últimas escadas e finalmente, ofegante, cheguei ao terceiro andar. Ofegante procurei pela sala, até que finalmente descobri a sala onde estaria o reitor, estava ao lado um quadrado de vidro – pelo menos parecia vidro – aparafusado à parede com o número 1 a preto, para além disso havia uma placa na porta de madeira a dizer: “Reitor Simon”. Olhei para o relógio afixado na parede sul do edifício e faltavam apenas um minuto para as 9 horas.
            Assim que o ponteiro bateu as nove, eu bati na porta.
            - Entre. – Ordenou uma voz bastante grave vinda de dentro da sala.
Entrei sem fazer qualquer barulho e fiquei à porta esperando qualquer ordem ou algo do género.
            - O que quer a Senhorita? Tá perdida? – Perguntou olhando para mim
            - Não, tenho uma carta sua… – Disse envergonhada
            - Ah porque não disse logo, entre Senhorita Sophia. – Disse para mim com um sorriso.
Fechei a porta sem fazer qualquer ruído e sentei-me na cadeira à frente da sua secretária de madeira pinho. O reitor estava distraído à procura de uns papéis e assim, aproveitei para tirar a carta da mala e para o analisar: era um senhor com os seus 56 anos, tinha barba escura com algumas partes brancas, já lhe faltava algum cabelo e tinha uma cara bolachuda.
- Muito bem Senhorita Sophia, você sabe o motivo da sua vinda aqui? – Perguntou o Reitor Simon
- Sim. – Respondi e dei-lhe a carta.
- Eu sei, recebeu uma bolsa de estudos para o nosso curso de dança, e sabe o porquê? – Sorriu para mim
- Não… – Respondi, eu não sabia o motivo, só sabia que era uma honra entrar nesta prestigiada universidade.
- Bem sabe, o que acontece é que o nosso procurador estava no espectáculo organizado pelo seu antigo conservatório, estava lá por motivos pessoais, e a senhorita apareceu e segundo o relatório do nosso procurador a senhorita foi incrível, então devido a tal relatório decidimos em conselho oferecer-lhe uma bolsa para estudar aqui na nossa universidade. – Disse olhando para mim
Eu não sabia o que dizer, apenas muito mas muito obrigada, no entanto as palavras não me saiam…
- Bem, senhorita o que resta saber é se aceita estudar no nosso estabelecimento de ensino. Então aceita? – Perguntou-me
- Sim senhor. – Disse com voz muito baixa
- Esplêndido! – Disse com um sorriso – Com a sua aquisição de certeza que a escola ganhará mais alguns prémios em dança. Bem senhorita, as suas aulas irão começar daqui a 2 dias, pois terá de tratar de papelada e terá de recolher o seu horário na sala da recepção. – Disse enquanto escrevia num papel qualquer coisa.
- Tome senhorita, aqui tem o papel que terá de entregar à dona Dulce, ela é que facultar-lhe-á todas as informações necessárias.
Levantei-me da cadeira, agarrei no papel e pu-lo na mala. Ia dirigir-me à porta quando o Senhor Reitor me disse algo e que me fez parar para ouvi-lo:
            - Esperemos que se sinta confortável connosco, agora só lhe desejo boa sorte Sophia, e Bem-vinda à Universidade de Maryland.
Agradeci e saí da sala. Desci todos os lances de escada até chegar de novo á sala da recepção. Entrei e li a identificação de todas as secretárias, a dona Dulce era a que estava ao computador. Dirigi-me até ela e disse:
- Hum… Desculpe, mas o director deu-me isto… – Entreguei-lhe o papel.
Ela desviou a atenção do computador e olhou para o papel. Rapidamente foi buscar um papel que parecia uma lista e de seguida foi buscar outros dois papéis, um mais pequeno e quadrangular e outro do tamanho normal de uma folha de papel.
- Aqui tem menina, este papel é o seu horário, este papel aqui é o que indica os seus livros e por fim, este aqui é para vir assinado no seu primeiro dia de aulas, é importante porque fala sobre a sua bolsa. – Disse entregando-me os papéis.
- Obrigada… – Disse enquanto colocava os papéis na bolsa excepto a folha referente aos livros. Fiquei a olhar para esta…
- A menina arranja os livros na biblioteca, pode pedir para tirar fotocópia de cada livro que como tem bolsa, não irá pagar. – Disse percebendo a minha confusão.
Agradeci e encaminhei-me para a biblioteca, esta estava deserta, não percebi o motivo, pois no horário afixado na porta esta não fechava. Encaminhei-me por entre as estantes sentindo-me cada vez pequena até que ouvi alguém…
- Quem está aí? – Era uma voz grave e arranhada
Arrepiei-me e saí de entre das estantes e vi um homem pequenino velhote, quase que parecia um duende, mas a sua voz dizia o contrário, sempre pensava que os duendes teriam uma voz aguda…
            - Que fazes aqui minha pequena? – Perguntou o homem
Pequena? – Pensei comigo mesma…
            - Queria uns livros… – Disse
            - Para fotocópia? – Perguntou intrigado a olhar para mim
Entreguei-lhe a folha e ele percebeu imediatamente o que eu precisava, dirigiu-se para a sua cadeira e sentou-se. Procurou algo no computador e de seguida levantou-se num pulo e foi buscar os livros.
            - Pronto, estes são os livros, mas aqui no papel indica que tens uma bolsa de estudos, então eu vou tirar fotocópia deles e depois vens busca-las no primeiro dia de aulas ok? – Perguntou o homem.
            - Ok. – Respondi dirigindo-me para a saída.
            Saí do edifício e encaminhei-me para o parque de estacionamento, agora atulhado de carros de estudantes, contei pelo menos 5 Ferrari, 3 volvos e 1 BMW. Entrei no meu Corolla e encaminhei-me para casa, olhei para o painel do carro e este acusava 11 horas. Dirigi para casa, esperava até que esta tivesse vazia, mas enganei-me…
            Estacionei e entrei em casa, lá estavam a minha mãe e a vovó Graça, pareciam contentes e exaustas. Coloquei a minha mala no chão e fui em direcção delas.
            - Olá. – Disse sentando-me à mesa
            - Olá querida, como foi a visita à universidade? – Perguntou a vovó enquanto compunha uma jarra de flores no centro da mesa da cozinha.
            - Bem, muito bem. – Respondi enquanto punha um pedaço de pão na boca e mastigava.
            - Ainda bem minha filha. – Disse a mãe enquanto punha o almoço na mesa.
Servi-me de arroz de espinafres e de cogumelos salteados. Comi bastante descansada aproveitando e saboreando cada garfada que punha na boca. Terminei de almoçar e esperei na mesa ouvindo a conversa.
            - Ficou mesmo muito bem. – Disse a avó
            - Muito bem mesmo, mas amanha é a sala e o quarto. – Respondeu a mãe.
Ah pois, a mama e a avó tinham ido decorar o apartamento do William, não sei como ficou mas tenho a certeza que ficou bastante bem. Levantei-me da mesa e preparei a minha mala de treinos, meti lá uma toalha, uma maça e uma garrafa de água. Subi para o quarto onde vesti o meu fato de treino, ele consistia numas calças largas cinzentas e uma camisola de manga curta preta. Calcei uns ténis e dirigi-me para o andar de baixo.
- Onde vais filha? – Perguntou a mãe.
- Estúdio. – Respondi já saindo de casa.
Saí de casa e fui a conduzir para o meu estúdio. Assim que entrei larguei o saco, o casaco e comecei a praticar algo que eu raramente fazia: Hip-hop
            Dancei muito… Dancei durante umas 4 horas e quando olhei para o relógio vi que eram 18 horas. Saí do estúdio, entrei dentro do carro. Dirigi para casa e assim que cheguei estacionei e dirigi-me logo para a entrada.
            - Olá querida, como correu os treinos? – Perguntou a mãe.
            - Bem mama. – Respondi
            - Muito bem, agora vai tomar banho e desce para o jantar, daqui a uma hora está pronto. – Informou
Dirigi-me para a casa de banho, comecei a tomar banho descontraidamente e logo a seguir vesti o pijama de sempre.
Escovei o cabelo e dirigi-me para o andar de baixo, onde reparei que já estava a mesa a ser posta. Sentei-me na cadeira do costume e esperei pelo jantar desfrutando apenas da companhia da mãe e da Graça.
            O jantar era carne estufada com massa… Mas para mim, a mãe fez tofu com massa de tomate. Comi descontraidamente a pensar como seriam as minhas aulas daqui para diante na Universidade.

            Eu não sabia o que esperar, só esperava que fosse bem aceite e que tivesse um bom desempenho… Sim, era tudo o que eu pedia por agora.

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