Era um sonho, e que belo
sonho… O sonho que um dia seria normal, ou neste caso, me achariam normal. Um
desejo de ter o homem que eu desejava ao meu lado, o desejo de poder me
exprimir tão facilmente como todos os outros, um desejo… Apenas um sonho.
Eram 7 horas da manhã, tudo
estava calmo na casa. Revirei-me por entre os cobertores, sabendo que era
escusado, mas mesmo assim tentei. Ok, não resulta, pensei para comigo.
Levantei-me da cama e ao pousar os meus pés descalços no chão senti um calafrio
a percorrer-me a espinha.
- Frio, muito frio – pensei
com os meus botões
Calcei umas pantufas, e
dirigi-me para a janela. Estava um dia agradável, tinha sol e apesar de estar
uma ligeira corrente de ar, podia admitir que estava agradável para um dia de
Setembro.
Voltei-me para a porta e
antes de sair verifiquei se tinha a janela fechada, enquanto isso dei uma
olhadela rápida no meu quarto. Tinha paredes beges clarinhas, uma cama de casal
encostada a uma das paredes, com a mesinha-de-cabeceira ao lado com um
candeeiro e um livro de romance em cima. Tinha uma secretária e uma estante e depois
o meu guarda-fatos. Não se parecia um quarto de uma rapariga de 19 anos, mas
mesmo assim eu gostava, era reconfortante, um dos meus casulos.
Desci pelas escadas de
madeira e dirigi-me para a cozinha. Já lá estava a minha mãe e a Dona Graça. A
mãe era muito diferente de mim, tinha cabelos curtos e castanhos, uma cara
jovem para os seus 40 anos e era uma arquitecta muito conceituada aqui em Maryland. Já Graça
era uma senhora de cerca de 65 anos, muito querida, ela sempre vivera comigo e
com a mãe depois de o meu pai falecer quando eu tinha 4 anos. Nunca tive avós,
por isso, ela é como se fosse minha família, e em todo o caso, minha avó.
- Bom dia Sophy – disse a
mãe.
- Bom dia – disse apenas como
era usual e dirigi-me para a mesa da cozinha que estava a terminar de ser
composta pela Graça.
- Bom dia minha querida
netinha! – Sorriu para mim
Esbocei
apenas um sorriso, e comecei a tirar o pão e o leite para tomar o
pequeno-almoço. Estava a preparar a refeição quando oiço a mãe.
-
Então Sophy sabes quem irá fazer anos daqui a uma semana? – Esboçou um sorriso
na expectativa que eu soubesse.
Realmente sabia, apenas não me apetecia
falar, mas os olhos expectantes da minha mãe quase me fuzilavam para que eu
respondesse.
-
Sim mamã é a Graça. – Respondi olhando para a minha avó, que esboçava um
sorriso contente de orelha a orelha.
-
E que vais oferecer à tua avó graça? – Mais uma vez expectante
Não fazia a mínima ideia do que iria
oferecer… Infelizmente era tão má a dar presentes como a comunicar com pessoas.
-
Vá Lisa não massacres a menina, ela não tem que me oferecer nada – disse a
Graça enquanto barrava o pão com geleia de morango.
A
mãe sentou-se enquanto eu olhava para a Graça e lhe transmitia um enorme
obrigado por aquela safa da minha mãe. Graça e a mãe começaram a falar de
alguma coisa relacionada com o neto da Graça e então eu desliguei. Eu sabia que
a Graça tinha um neto, ela falava muito dele, tinha um orgulho muito grande por
ele se ter tornado médico e comentava sempre que tinha muitas saudades dele,
pois este vivia em
Inglaterra. Eu não queria ser má ao não ligar à conversa, mas
apenas me concentrei a comer o meu pequeno-almoço.
Acabei
de comer e dirigi-me para a casa de banho. Lavei a cara, escovei os dentes e
escovei o meu longo cabelo castanho-escuro onde depois o apanhei fazendo um
rabo-de-cavalo. Eu era uma rapariga muito simples, aquilo a que se chama
“rapariga sem graça”, tinha cabelo castanho-escuro comprido mas liso, uma pele
branca e uns olhos castanhos chocolate que eu considerava “quase sem vida”. A
única qualidade que eu teria física é o facto de o meu corpo pequeno e frágil
ser bem formado devido à dança, a minha maneira de falar, de me exprimir. Mas
apesar dessa minha qualidade física, eu não a gostava de exibir, era demasiado
envergonhada e fechada para isso.
Dirigi-me
para o quarto onde peguei numas calças de ganga escuras e uma camisola larga
castanha. Calcei os meus all-star azuis-escuros. Estava a sair do quarto quando
o meu telemóvel tocou. Apressei-me para o atender.
-
Alô Sophy? – Disse Jéssica
Jéssica
era minha amiga, alias a minha única amiga. Ela era sempre muito fácil de
falar, eu não necessitava de empregar muitas palavras para que ela me
entendesse, se bem que apesar de certos pensamentos meus acerca do seu actual
marido… O Thomas.
Ela sempre me ligava a contar
tudo sobre ela e o seu adorado namorado, mal sabia que ele era o meu amor
também…
- Sophy eu e o Thomas estamos a namorar!
- Que bom.
- Sophy eu e o Thomas dormimos juntos!
- Óptimo
- Sophy eu e o Thomas fizemos amor!
- Sim?!
- Sophy eu e o Thomas vamos casar!
- Boa.
Eu adorava a Jéssica e amava
o Thomas, mas era um amor-platónico, eu nunca poderia ficar com ele, eu adorava
demasiado a amizade da Jéssica.
- Alô Sophy?! – Perguntou
Jéssica
- Sim – Respondi antes que
ela perguntasse mais.
- Ah tas aí. Olha amiga
desculpa mas era para dares um conselho sobre que cor de lingerie irei comprar
para surpreender o Thom. Desde a lua-de-mel que não sei preparar surpresas,
então tou indecisa, preto ou vermelho? – Perguntou
- Preto – disse embora
enrubescendo com a minha resposta. Nunca pensei em lingerie.
- Hã preto, mas é tão
enfadonho miga, eu cá escolho o vermelho, mas obrigada pela ajuda tá. Adoro-te
miga. Um beijo.
- Xau – disse apenas
Deitei-me na cama a
lacrimejar, e comecei a pensar no Thomas, eu não sei o porquê de continuar a
pensar nele, mas eu sabia que nunca iria ficar com ele, logo imaginar não faria
mal. Ele também nunca iria gostar de mim, não quando todos me achavam estranha,
incluindo a minha própria mãe… Sempre fui uma pessoa muito reservada e pouco
faladora, e a minha mãe sempre achou isso estranho. Levou-me a vários
psicólogos e estes fizeram-me montes de exames até que após cinco anos de psicanálises
e todas iguais, a minha mãe aceitou a resposta de todos os médicos: “A sua
filha é completamente normal, não sofre de nenhum problema de ordem psíquica”.
Apesar de todo o sofrimento e
constrangimento durante cinco anos, agora sou feliz, e acho que todos ficariam
se nos anos deixassem de receber livros de auto-ajuda para pessoas tímidas e
assim. Eu gostava de como era, sei que era tímida e vivia dentro do meu casulo,
mas sentia que ainda não estava pronta para sair para o mundo.
Parei de chorar e vi as
horas, eram agora 10 horas, então estava na hora de ir para o conservatório,
onde estudava Dança. Preparei tudo para as aulas e dirigi-me para o andar de
baixo, onde apanhei uma maça e a minha água.
- Adeus minha querida! –
Gritou a mãe do escritório onde trabalhava com a vovó Graça.
- Adeus minha netinha e dança
muito! – Gritou Graça para mim também do escritório.
- Até logo. – Respondi apenas
com a voz suficiente audível para elas perceberem.
Saí de casa e dirigi-me para
o meu velho Corolla azul e comecei a conduzir para o conservatório. Estacionei
e dirigi-me para o interior para a minha primeira aula. Conduzi-me pelos
corredores até chegar ao auditório onde me sentei na última carteira das filas
do fundo, onde ninguém se encontrava.
Comecei a retirar tudo da
minha pasta e aguardei a entrada do professor. Olhei em meu redor, havia montes
de raparigas na minha sala, cada uma delas mais bonita do que a outra. Cada uma
envergava vestidos lindos e justos, que quando os rapazes olhavam quase tinham
um ataque cardíaco, e ali estava eu, a simples e enfadonha Sophia de sempre,
vestida com a mesma camisola larga castanha e as calças escuras de sempre… às
vezes invejava a sorte das raparigas da minha classe, todas elas bonitas,
descontraídas e faladoras, tudo o contrário de mim… Eu já sabia que era
diferente, mas ao olhar para elas sentia-me cada vez mais inferior….
Felizmente que o professor
não demorou a chegar e aí parei de pensar e exigi de mim toda a concentração para
as aulas que me esperavam.
A aula durou umas 2 horas, e
quando dei por mim já eram horas de almoço. Dirigi-me para a cafetaria onde
resolvi comer sopa de espinafre e o segundo prato era arroz com bife, mas esse
não o comi por certas razões. Sentei-me na mesa da cafetaria onde ninguém se
sentou, também mesmo que se sentasse não iria gostar de estar ali. Por algum
motivo as pessoas não gostam do silêncio, não podia dizer que era o meu caso,
eu tirava prazer do silêncio.
Almocei rapidamente, sem
degustar a comida. Não me sentia confortável com tanta gente a falar alto, ou
se calhar era só para mim que era alto. Levantei-me e dirigi-me para a pequena
biblioteca da senhora Clarisse. Sentei-me num pequeno sofá axadrezado e tirei
da minha bolsa um dos meus livros preferidos, “Flores da Tempestade”, um
Romance lindo, sobre um homem que era um sedutor mas fica sem conseguir falar e
conhece a tímida e bondosa Maddy que o ajuda e assim se apaixonam…
Eu adorava romances, eles eram um
passaporte para outra realidade, onde podíamos sentir o que as personagens dos
livros sentiam, e para mim era algo mágico, quase tanto como dançar.
Ao
ler comecei a pensar… será que alguém me ia amar tanto como o homem que ama a
Maddy? Após o pensamento ter-me ocorrido apercebi-me que já eram quase 14
horas, ou seja hora de ir para a aula.
Arrumei tudo e fui em direcção de novo à
minha aula da tarde. Entrei e sentei-me na fila de trás, isolada. O professor
não tardou a entrar para dar início à aula, o que eu agradeci, assim não daria
tempo para a minha mente começar a divagar.
Eram 17 horas, e finalmente
as aulas tinham terminado, todas tinham corrido bem e sem qualquer percalço.
Saí do edifício e senti a aragem fria que se tinha levantado e dirigi-me mais
depressa para o meu carro que estava estacionado no parque dos estudantes.
Entrei e conduzi até ao meu estúdio de dança que ficava a um quarteirão de
distância do Conservatório.
Estacionei e dirigi-me à
entrada do estúdio. Ao entrar senti-me em casa. Era um estúdio de dança velho, tinha cerca
de 40 anos, e por causa disso é que o comprámos – era barato. No entanto com a
ajuda da mãe e da Graça ficou um óptimo estúdio completamente renovado com
espelhos e tudo o que era necessário para eu dançar. Era como se fossa a minha
segunda casa, o meu porto seguro. Ali eu podia ser eu mesma…
Liguei a aparelhagem, larguei
o saco e comecei o que eu sabia fazer melhor… Dançar.
Acho a escrita interessante. Gostei do facto de ser fácil de ler porque para mim é importante que a leitura seja fácil e acessível. A história promete e a autora poderá conseguir um resultado final muito positivo.
ResponderEliminarConcordo totalmente com o comentário anterior!! E devo de dizer que fiquei muito surpreendida :) Muitos Parabéns!! Estou desejosa de ler o resto. 1 beijinho *
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