segunda-feira, 29 de julho de 2013

Capítulo 1 - Espelho

Era um sonho, e que belo sonho… O sonho que um dia seria normal, ou neste caso, me achariam normal. Um desejo de ter o homem que eu desejava ao meu lado, o desejo de poder me exprimir tão facilmente como todos os outros, um desejo… Apenas um sonho.
Eram 7 horas da manhã, tudo estava calmo na casa. Revirei-me por entre os cobertores, sabendo que era escusado, mas mesmo assim tentei. Ok, não resulta, pensei para comigo. Levantei-me da cama e ao pousar os meus pés descalços no chão senti um calafrio a percorrer-me a espinha.
- Frio, muito frio – pensei com os meus botões
Calcei umas pantufas, e dirigi-me para a janela. Estava um dia agradável, tinha sol e apesar de estar uma ligeira corrente de ar, podia admitir que estava agradável para um dia de Setembro.
Voltei-me para a porta e antes de sair verifiquei se tinha a janela fechada, enquanto isso dei uma olhadela rápida no meu quarto. Tinha paredes beges clarinhas, uma cama de casal encostada a uma das paredes, com a mesinha-de-cabeceira ao lado com um candeeiro e um livro de romance em cima. Tinha uma secretária e uma estante e depois o meu guarda-fatos. Não se parecia um quarto de uma rapariga de 19 anos, mas mesmo assim eu gostava, era reconfortante, um dos meus casulos.
Desci pelas escadas de madeira e dirigi-me para a cozinha. Já lá estava a minha mãe e a Dona Graça. A mãe era muito diferente de mim, tinha cabelos curtos e castanhos, uma cara jovem para os seus 40 anos e era uma arquitecta muito conceituada aqui em Maryland. Já Graça era uma senhora de cerca de 65 anos, muito querida, ela sempre vivera comigo e com a mãe depois de o meu pai falecer quando eu tinha 4 anos. Nunca tive avós, por isso, ela é como se fosse minha família, e em todo o caso, minha avó.
- Bom dia Sophy – disse a mãe.
- Bom dia – disse apenas como era usual e dirigi-me para a mesa da cozinha que estava a terminar de ser composta pela Graça.
- Bom dia minha querida netinha! – Sorriu para mim
            Esbocei apenas um sorriso, e comecei a tirar o pão e o leite para tomar o pequeno-almoço. Estava a preparar a refeição quando oiço a mãe.
            - Então Sophy sabes quem irá fazer anos daqui a uma semana? – Esboçou um sorriso na expectativa que eu soubesse.
Realmente sabia, apenas não me apetecia falar, mas os olhos expectantes da minha mãe quase me fuzilavam para que eu respondesse.
            - Sim mamã é a Graça. – Respondi olhando para a minha avó, que esboçava um sorriso contente de orelha a orelha.
            - E que vais oferecer à tua avó graça? – Mais uma vez expectante
Não fazia a mínima ideia do que iria oferecer… Infelizmente era tão má a dar presentes como a comunicar com pessoas.
            - Vá Lisa não massacres a menina, ela não tem que me oferecer nada – disse a Graça enquanto barrava o pão com geleia de morango.
            A mãe sentou-se enquanto eu olhava para a Graça e lhe transmitia um enorme obrigado por aquela safa da minha mãe. Graça e a mãe começaram a falar de alguma coisa relacionada com o neto da Graça e então eu desliguei. Eu sabia que a Graça tinha um neto, ela falava muito dele, tinha um orgulho muito grande por ele se ter tornado médico e comentava sempre que tinha muitas saudades dele, pois este vivia em Inglaterra. Eu não queria ser má ao não ligar à conversa, mas apenas me concentrei a comer o meu pequeno-almoço.
            Acabei de comer e dirigi-me para a casa de banho. Lavei a cara, escovei os dentes e escovei o meu longo cabelo castanho-escuro onde depois o apanhei fazendo um rabo-de-cavalo. Eu era uma rapariga muito simples, aquilo a que se chama “rapariga sem graça”, tinha cabelo castanho-escuro comprido mas liso, uma pele branca e uns olhos castanhos chocolate que eu considerava “quase sem vida”. A única qualidade que eu teria física é o facto de o meu corpo pequeno e frágil ser bem formado devido à dança, a minha maneira de falar, de me exprimir. Mas apesar dessa minha qualidade física, eu não a gostava de exibir, era demasiado envergonhada e fechada para isso.
            Dirigi-me para o quarto onde peguei numas calças de ganga escuras e uma camisola larga castanha. Calcei os meus all-star azuis-escuros. Estava a sair do quarto quando o meu telemóvel tocou. Apressei-me para o atender.
            - Alô Sophy? – Disse Jéssica
            Jéssica era minha amiga, alias a minha única amiga. Ela era sempre muito fácil de falar, eu não necessitava de empregar muitas palavras para que ela me entendesse, se bem que apesar de certos pensamentos meus acerca do seu actual marido… O Thomas.
Ela sempre me ligava a contar tudo sobre ela e o seu adorado namorado, mal sabia que ele era o meu amor também…
- Sophy eu e o Thomas estamos a namorar!
- Que bom.
  
- Sophy eu e o Thomas dormimos juntos!
- Óptimo

- Sophy eu e o Thomas fizemos amor!
- Sim?!

- Sophy eu e o Thomas vamos casar!
- Boa.

Eu adorava a Jéssica e amava o Thomas, mas era um amor-platónico, eu nunca poderia ficar com ele, eu adorava demasiado a amizade da Jéssica.
- Alô Sophy?! – Perguntou Jéssica
- Sim – Respondi antes que ela perguntasse mais.
- Ah tas aí. Olha amiga desculpa mas era para dares um conselho sobre que cor de lingerie irei comprar para surpreender o Thom. Desde a lua-de-mel que não sei preparar surpresas, então tou indecisa, preto ou vermelho? – Perguntou
- Preto – disse embora enrubescendo com a minha resposta. Nunca pensei em lingerie.
- Hã preto, mas é tão enfadonho miga, eu cá escolho o vermelho, mas obrigada pela ajuda tá. Adoro-te miga. Um beijo.
- Xau – disse apenas
Deitei-me na cama a lacrimejar, e comecei a pensar no Thomas, eu não sei o porquê de continuar a pensar nele, mas eu sabia que nunca iria ficar com ele, logo imaginar não faria mal. Ele também nunca iria gostar de mim, não quando todos me achavam estranha, incluindo a minha própria mãe… Sempre fui uma pessoa muito reservada e pouco faladora, e a minha mãe sempre achou isso estranho. Levou-me a vários psicólogos e estes fizeram-me montes de exames até que após cinco anos de psicanálises e todas iguais, a minha mãe aceitou a resposta de todos os médicos: “A sua filha é completamente normal, não sofre de nenhum problema de ordem psíquica”.
Apesar de todo o sofrimento e constrangimento durante cinco anos, agora sou feliz, e acho que todos ficariam se nos anos deixassem de receber livros de auto-ajuda para pessoas tímidas e assim. Eu gostava de como era, sei que era tímida e vivia dentro do meu casulo, mas sentia que ainda não estava pronta para sair para o mundo.
Parei de chorar e vi as horas, eram agora 10 horas, então estava na hora de ir para o conservatório, onde estudava Dança. Preparei tudo para as aulas e dirigi-me para o andar de baixo, onde apanhei uma maça e a minha água.
- Adeus minha querida! – Gritou a mãe do escritório onde trabalhava com a vovó Graça.
- Adeus minha netinha e dança muito! – Gritou Graça para mim também do escritório.
- Até logo. – Respondi apenas com a voz suficiente audível para elas perceberem.
Saí de casa e dirigi-me para o meu velho Corolla azul e comecei a conduzir para o conservatório. Estacionei e dirigi-me para o interior para a minha primeira aula. Conduzi-me pelos corredores até chegar ao auditório onde me sentei na última carteira das filas do fundo, onde ninguém se encontrava.
Comecei a retirar tudo da minha pasta e aguardei a entrada do professor. Olhei em meu redor, havia montes de raparigas na minha sala, cada uma delas mais bonita do que a outra. Cada uma envergava vestidos lindos e justos, que quando os rapazes olhavam quase tinham um ataque cardíaco, e ali estava eu, a simples e enfadonha Sophia de sempre, vestida com a mesma camisola larga castanha e as calças escuras de sempre… às vezes invejava a sorte das raparigas da minha classe, todas elas bonitas, descontraídas e faladoras, tudo o contrário de mim… Eu já sabia que era diferente, mas ao olhar para elas sentia-me cada vez mais inferior….
Felizmente que o professor não demorou a chegar e aí parei de pensar e exigi de mim toda a concentração para as aulas que me esperavam.
A aula durou umas 2 horas, e quando dei por mim já eram horas de almoço. Dirigi-me para a cafetaria onde resolvi comer sopa de espinafre e o segundo prato era arroz com bife, mas esse não o comi por certas razões. Sentei-me na mesa da cafetaria onde ninguém se sentou, também mesmo que se sentasse não iria gostar de estar ali. Por algum motivo as pessoas não gostam do silêncio, não podia dizer que era o meu caso, eu tirava prazer do silêncio.
Almocei rapidamente, sem degustar a comida. Não me sentia confortável com tanta gente a falar alto, ou se calhar era só para mim que era alto. Levantei-me e dirigi-me para a pequena biblioteca da senhora Clarisse. Sentei-me num pequeno sofá axadrezado e tirei da minha bolsa um dos meus livros preferidos, “Flores da Tempestade”, um Romance lindo, sobre um homem que era um sedutor mas fica sem conseguir falar e conhece a tímida e bondosa Maddy que o ajuda e assim se apaixonam…
Eu adorava romances, eles eram um passaporte para outra realidade, onde podíamos sentir o que as personagens dos livros sentiam, e para mim era algo mágico, quase tanto como dançar.
            Ao ler comecei a pensar… será que alguém me ia amar tanto como o homem que ama a Maddy? Após o pensamento ter-me ocorrido apercebi-me que já eram quase 14 horas, ou seja hora de ir para a aula.
Arrumei tudo e fui em direcção de novo à minha aula da tarde. Entrei e sentei-me na fila de trás, isolada. O professor não tardou a entrar para dar início à aula, o que eu agradeci, assim não daria tempo para a minha mente começar a divagar.
Eram 17 horas, e finalmente as aulas tinham terminado, todas tinham corrido bem e sem qualquer percalço. Saí do edifício e senti a aragem fria que se tinha levantado e dirigi-me mais depressa para o meu carro que estava estacionado no parque dos estudantes. Entrei e conduzi até ao meu estúdio de dança que ficava a um quarteirão de distância do Conservatório.
Estacionei e dirigi-me à entrada do estúdio. Ao entrar senti-me em casa. Era um estúdio de dança velho, tinha cerca de 40 anos, e por causa disso é que o comprámos – era barato. No entanto com a ajuda da mãe e da Graça ficou um óptimo estúdio completamente renovado com espelhos e tudo o que era necessário para eu dançar. Era como se fossa a minha segunda casa, o meu porto seguro. Ali eu podia ser eu mesma…

Liguei a aparelhagem, larguei o saco e comecei o que eu sabia fazer melhor… Dançar.

2 comentários:

  1. Acho a escrita interessante. Gostei do facto de ser fácil de ler porque para mim é importante que a leitura seja fácil e acessível. A história promete e a autora poderá conseguir um resultado final muito positivo.

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  2. Concordo totalmente com o comentário anterior!! E devo de dizer que fiquei muito surpreendida :) Muitos Parabéns!! Estou desejosa de ler o resto. 1 beijinho *

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